Sorriso interior
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão–lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
CRUZ e SOUZA, João da. Sorriso interior. Últimos sonetos. Rio de Janeiro:
UFSC/Fundação Casa de Rui Barbosa/FCC, 1984.
O poema representa a estética do Simbolismo, nascido
como uma reação ao Parnasianismo por volta de 1885. O
Simbolismo tem como característica, entre outras, a visão
do poeta inspirado e capaz de mostrar à humanidade, pela
poesia, o que esta não percebe.
O trecho do poema de Cruz e Souza que melhor
exemplifica o fazer poético, de acordo com as
características dos simbolistas, é:
Sou negro
Solano Trindade
Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs
Contaram–me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu
Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como o quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou
Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...
TRINDADE, Solano. Sou negro. In: Alda Beraldo. Trabalhando com poesia. São Paulo:
Ática, 1990, v. 2
O poema resgata a memória de fatos históricos que fazem
parte do patrimônio cultural do povo brasileiro e faz
referência a diversos elementos, entre os quais, incluem–se
Para o Mano Caetano

1 Tease me (caçoe de mim, importune-me).
LOBÃO. Disponível em: http://vagalume.uol.com.br. Acesso em: 14 ago. 2009 (adaptado).
Na letra da canção apresentada, o compositor Lobão explora vários recursos da língua portuguesa, a fim de conseguir efeitos estéticos ou de sentido. Nessa letra, o autor explora o extrato sonoro do idioma e o uso de termos coloquiais na seguinte passagem:
Na Bíblia, a criação do mundo é descrita a partir
das ordens de um único ser, que é Deus: “Disse Deus:
Haja luz; e houve luz" (Gen., 1:3). Porém, em certos
mitos ameríndios, inclusive brasileiros, a criação do
mundo é poeticamente apresentada como resultado de
um diálogo entre múltiplos espíritos. As linhas a seguir
servem como exemplo. Elas narram o surgimento de um
desses espíritos criadores (demiurgos): “Tendo florido
(em forma humana) / Da sabedoria contida em seu ser de
céu / Em virtude de seu saber que se abre em flor, /
Soube para si em si mesmo / a essência da essência da
essência das belas palavras primeiras".
CESARINO, Pedro de N. Os Poetas. Folha de S. Paulo. 18 jan. 2009: p. 6–7
(adaptado).
A Bíblia trata da criação em linguagem poética.
Analogamente, são poéticas as linhas ameríndias acima
citadas. Em geral, a poesia abriga diferenças de forma e
de conteúdo por
Resolvo–me a contar, depois de muita hesitação,
casos passados há dez anos — e, antes de começar, digo
os motivos por que silenciei e por que me decido. Não
conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas e,
assim, com o decorrer do tempo, ia–me parecendo cada
dia mais difícil, quase impossível, redigir esta narrativa.
Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças,
esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai
aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me
afligiu a idéia de jogar no papel criaturas vivas, sem
disfarces, com os nomes que têm no registro civil.
Repugnava–me deformá–las, dar–lhes pseudônimo, fazer
do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de
utilizá–las em história presumivelmente verdadeira? Que
diriam elas se se vissem impressas, realizando atos
esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas?
RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2000, v.1, p. 33.
Em relação ao seu contexto literário e sócio–histórico, esse
fragmento da obra Memórias do Cárcere, do escritor
Graciliano Ramos,
Violoncelo
(...)
Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas
Pontes aladas
De pesadelo...
(...)
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
PESSANHA, Camilo. Violoncelo. In: GOMES, Á. C. O
Simbolismo, São Paulo: Editora Ática, 1994, p.45.
Os poetas simbolistas valorizaram as
possibilidades expressivas da língua e sua musicalidade.
Aprofundaram a expressão individual até o nível do
subconsciente. Desse esforço resultou, quase sempre,
uma visão desencantada e pessimista do mundo.
Nas estrofes destacadas do poema Violoncelo, as
características do Simbolismo revelam–se na
Muito se tem falado da sociedade informacional,
da sociedade da comunicação global, do surgimento das
redes telemáticas e de sua correlata dinâmica social. O
ciberespaço é lócus de efervescência social e canal por
onde circulam formas multimodais de informação. A rede é
artefato, conteúdo, canal e metáfora. Como meio, a
Internet problematiza a forma midiática massiva de
divulgação cultural e artística. Ela é o foco de irradiação de
informação, conhecimento e troca de mensagens entre
pessoas ao redor do mundo, abrindo o polo da emissão.
Com a cibercultura, trata–se efetivamente da emergência
de uma liberação do polo da emissão, onde todos os
usuários são autores, e é essa liberação que, em nossa
hipótese, vai marcar a cultura da rede contemporânea em
suas mais diversas manifestações: chats, Orkut, jogos
online, fotologs, weblogs, wikipédia, troca de músicas,
filmes, fotos, textos, software livre... Ligar–se ao outro, ou
re–ligar, parece ser o mote atual da cibercultura, criando
formas de sociabilidade, tendo nas tecnologias digitais um
vetor de agregação social. A cibercultura contemporânea é
fruto de influências mútuas, de trabalho cooperativo, de
criação e de livre circulação de informação através dos
novos dispositivos eletrônicos e telemáticos. É nesse
sentido que a cibercultura traz uma cultura baseada na
metáfora do copyleft.
LEMOS, André. Cibercultura, cultura e identidade. Em direção a uma “Cultura Copyleft".
Disponível em: http://www.contemporanea.poscom.ufba.br/v2n2_pdf_dez04/lemoscibercultura–
v2n2.pdf. Acesso em: 02 maio 2009. (adaptado).
O texto Cibercultura, cultura e identidade de André
Lemos, visa demonstrar que a cibercultura

No texto, o personagem narrador, na iminência da partida, descreve a sua hesitação em separar-se da avó. Esse sentimento contraditório fica claramente expresso no trecho:
Pobre Isaura! Sempre e em toda parte esta continua importunação de senhores e de escravos, que não a deixam sossegar um só momento! Como não devia viver aflito e atribulado aquele coração! Dentro de casa contava ela quatro inimigos, cada qual mais porfiado em roubar-Ihe a paz da alma, e torturar-Ihe o coração: três amantes, Leôncio, Belchior, e Andre, e uma emula terrível e desapiedada, Rosa. Fácil -lhe fora repelir as importunações e insolências dos escravos e criados; mas que seria dela, quando viesse o senhor?!...
GUIMARAES, B. A escrava Isaura. São Paulo: Atica, 1995 (adaptado).
A personagem Isaura, como afirma o titulo do romance, era uma escrava. No trecho apresentado, os sofrimentos por que passa a protagonista
Isto
Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo 0 que me falha ou finda,
E como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa 6 que 6 linda.
Por isso escrevo em meio Do que não esta ao pe, Livre do meu enleio,
Sério do que não e.
Sentir? Sinta quem le!
PESSOA, F. Poemas escolhidos. São Paulo: Globo, 1997.
Fernando Pessoa é um dos poetas mais extraordinários do século XX. Sua obsess-do pelo fazer poética não encontrou limites. Pessoa viveu mais no piano criativo do que no piano concreto, e criar foi a grande finalidade de sua vida. Poeta da "Geração Orfeu", assumiu uma atitude irreverente.
Com base no texto e na teatica do poema Isto, conclui-se que o autor
No decênio de 1870, Franklin Távora defendeu a tese de que no Brasil havia duas literaturas independentes dentro da mesma língua: uma do Norte e outra do Sul, regiões segundo ele muito diferentes por formação histórica, composição étnica, costumes, modismos linguísticos etc. Por isso, deu aos romances regionais que publicou o título geral de Literatura do Norte. Em nossos dias, um escritor gaúcho, Viana Moog, procurou mostrar com bastante engenho que no Brasil há, em verdade, literaturas setoriais diversas, refletindo as características locais.
CANDIDO, A. A nova narrativa. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 2003.
Com relação à valorização, no romance regionalista brasileiro, do homem e da paisagem de determinadas regiões nacionais, sabe-se que
Linhas tortas
Há uma literatura antipática e insincera que só usa
expressões corretas, só se ocupa de coisas agradáveis,
não se molha em dias de inverno e por isso ignora que há
pessoas que não podem comprar capas de borracha.
Quando a chuva aparece, essa literatura fica em casa,
bem aquecida, com as portas fechadas. [...] Acha que tudo
está direito, que o Brasil é um mundo e que somos felizes.
[...] Ora, não é verdade que tudo vá tão bem [...]. Nos
algodoais e nos canaviais do Nordeste, nas plantações de
cacau e de café, nas cidadezinhas decadentes do interior,
nas fábricas, nas casas de cômodos, nos prostíbulos, há
milhões de criaturas que andam aperreadas.
[...]
Os escritores atuais foram estudar o subúrbio, a fábrica, o
engenho, a prisão da roça, o colégio do professor
mambembe.
Para isso resignaram–se a abandonar o asfalto e o café,
[...] tiveram a coragem de falar errado como toda gente,
sem dicionário, sem gramáticas, sem manual de retórica.
Ouviram gritos, palavrões e meteram tudo nos livros que
escreveram.
RAMOS, Graciliano. Linhas tortas. 8.ª ed. São Paulo: Record, 1980, p. 92/3.
O ponto de vista defendido por Graciliano Ramos
Os poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam–se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti ...
QUINTANA, Mário. Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2001, p. 104.
O poema sugere que o leitor é parte fundamental no
processo de construção de sentido da poesia. O verso que
melhor expressa essa ideia é
O falecimento de uma criança é um dia de festa.
Ressoam as violas na cabana dos pobres pais, jubilosos
entre as lágrimas; referve o samba turbulento; vibram nos
ares, fortes, as coplas dos desafios, enquanto, a uma
banda, entre duas velas de carnaúba, coroado de flores, o
anjinho exposto espelha, no último sorriso paralisado, a
felicidade suprema da volta para os céus, para a felicidade
eterna — que é a preocupação dominadora daquelas
almas ingênuas e primitivas.
CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos. Edição comemorativa do 90.º
ano do lançamento. Rio de Janeiro: Ediouro, 1992, p. 78.
Nessa descrição de costume regional, é empregada
A bem dizer, sou Ponciano de Azeredo Furtado,
coronel de patente, do que tenho honra e faço alarde.
Herdei do meu avô Simeão terras de muitas medidas, gado
do mais gordo, pasto do mais fino. Leio no corrente da
vista e até uns latins arranhei em tempos verdes da
infância, com uns padres–mestres a dez tostões por mês.
Digo, modéstia de lado, que já discuti e joguei no assoalho
do Foro mais de um doutor formado. Mas disso não faço
glória, pois sou sujeito lavado de vaidade, mimoso no trato,
de palavra educada. Trato as partes no macio, em jeito de
moça. Se não recebo cortesia de igual porte, abro o peito:
— Seu filho de égua, que pensa que é?
(...)
Meus dias no Sossego findaram quando fui pegado
em delito de sem–vergonhismo em campo de pitangueiras.
A pardavasquinha dessa intimidade de mato ganhou dúzia
e meia de bolos e eu recriminação de fazer um frade de
pedra verter lágrima. Simeão, sujeito severoso, veio do
Sobradinho aquilatar o grau de safadeza do neto. Levei
solavanco de orelha, fui comparado aos cachorros dos
currais e por dois dias bem contados fiquei em galé de
quarto escuro. No rabo dessa justiça, meu avô deliberou
que eu devia tomar rumo da cidade:
— Na mão dos padres eu corto os deboches desse
desmazelado.
(...)
CARVALHO, José Cândido de. O coronel e o lobisomem.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1994. p. 3–5.
Quanto ao estilo e à linguagem empregada no trecho do
romance de José Cândido de Carvalho, nota–se que