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Primeiro surgiu o homem nu de cabeça baixa.

Deus veio num raio. Então apareceram os bichos que

comiam os homens. E se fez o fogo, as especiarias, a

roupa, a espada e o dever. Em seguida se criou a filosofia,

que explicava como não fazer o que não devia ser feito.

Então surgiram os números racionais e a História,

organizando os eventos sem sentido. A fome desde

sempre, das coisas e das pessoas. Foram inventados o

calmante e o estimulante. E alguém apagou a luz. E cada

um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas

que alcança.

BONASSI, F. 15 cenas do descobrimento de Brasis. In: MORICONI, Í. (Org.).

Os cem melhores contos do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

A narrativa enxuta e dinâmica de Fernando Bonassi

configura um painel evolutivo da história da humanidade.

Nele, a projeção do olhar contemporâneo manifesta uma

percepção que

Exmº Sr. Governador:

Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados

pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928

[…]

ADMINISTRAÇÃO

Relativamente à quantia orçada, os telegramas

custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro

considerável. Não há vereda aberta pelos matutos que

prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando

que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas

históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso;

todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque

se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou

pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F.

esticou a canela – um telegrama.

Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929

GRACILIANO RAMOS

RAMOS, G. Viventes das Alagoas. São Paulo: Martins Fontes, 1962

O relatório traz a assinatura de Graciliano Ramos, na

época, prefeito de Palmeira dos Índios, e é destinado

ao governo do estado de Alagoas. De natureza oficial,

o texto chama a atenção por contrariar a norma prevista

para esse gênero, pois o autor

Aquarela

O corpo no cavalete

é um pássaro que agoniza

exausto do próprio grito.

As vísceras vasculhadas

principiam a contagem

regressiva.

No assoalho o sangue

se decompõe em matizes

que a brisa beija e balança:

o verde – de nossas matas

o amarelo – de nosso ouro

o azul – de nosso céu

o branco o negro o negro

CACASO. In: HOLLANDA, H. B (Org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007

Situado na vigência do Regime Militar que governou o

Brasil, na década de 1970, o poema de Cacaso edifica

uma forma de resistência e protesto a esse período,

metaforizando

TEXTO I

Voluntário

Rosa tecia redes, e os produtos de sua pequena indústria gozavam de boa fama nos arredores. A reputação da tapuia crescera com a feitura de uma maqueira de tucum ornamentada com a coroa brasileira, obra de ingênuo gosto, que lhe valera a admiração de toda a comarca e provocara a inveja da célebre Ana Raimunda, de Óbidos, a qual chegara a formar uma fortunazinha com aquela especialidade, quando a indústria norte-americana reduzira à inatividade os teares rotineiros do Amazonas. SOUSA, I. Contos amazônicos. São Paulo: Martins Fontes, 2004

TEXTO II

Relato de um certo oriente

Emilie, ao contrário de meu pai, de Dorner e dos nossos vizinhos, não tinha vivido no interior do Amazonas. Ela, como eu, jamais atravessara o rio. Manaus era o seu mundo visível. O outro latejava na sua memória. Imantada por uma voz melodiosa, quase encantada, Emilie maravilha-se com a descrição da trepadeira que espanta a inveja, das folhas malhadas de um tajá que reproduz a fortuna de um homem, das receitas de curandeiros

que veem em certas ervas da floresta o enigma das doenças mais temíveis, com as infusões de coloração sanguínea aconselhadas para aliviar trinta e seis dores do corpo humano. "E existem ervas que não curam nada", revelava a lavadeira, "mas assanham a mente da gente. Basta tomar um gole do líquido fervendo para que o cristão sonhe uma única noite muitas vidas diferentes". Esse relato poderia ser de duvidosa veracidade para outras pessoas, mas não para Emilie. HATOUM, M. São Paulo: Cia. das Letras, 2008

As representações da Amazônia na literatura brasileira mantêm relação com o papel atribuído à região na construção do imaginário nacional. Pertencentes a contextos históricos distintos, os fragmentos diferenciam-se ao propor uma representação da realidade amazônica em que se evidenciam

TEXTO 1 Quem sabe, devido às atividades culinárias da esposa, nesses idílios Vadinho dizia-lhe "Meu manuê de milho verde, meu acarajé cheiroso, minha franguinha gorda", e tais comparações gastronômicas davam justa ideia de certo encanto sensual e caseiro de dona Flor a esconder-se sob uma natureza tranquila e dócil. Vadinho conhecia-lhe as fraquezas e as expunha ao sol, aquela ânsia controlada de tímida, aquele recatado desejo fazendo-se violência e mesmo incontinência ao libertar-se na cama.

AMADO, J. Dona Flor e seus dois maridos. São Paulo: Martins, 1966

TEXTO II As suas mãos trabalham na braguilha das calças do falecido. Dulcineusa me confessou mais tarde: era assim que o marido gostava de começar as intimidades. Um fazer de conta que era outra coisa, a exemplo do gato que distrai o olhar enquanto segura a presa nas patas. Esse o acordo silencioso que tinham: ele chegava em casa e se queixava que tinha um botão a cair. Calada, Dulcineusa se armava dos apetrechos da costura e se posicionava a jeito dos prazeres e dos afazeres. COUTO, M. Um do chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Cia. das Letras, 2002

Tema recorrente na obra de Jorge Amado, a figura feminina aparece, no fragmento, retratada de forma semelhante à que se vê no texto do moçambicano Mia Couto. Nesses dois textos, com relação ao universo feminino em seu contexto doméstico, observa-se que O

Yaô

Aqui có no terreiro

Pelú adié

Faz inveja pra gente

Que não tem mulher

No jacutá de preto velho

Há uma festa de yaô

Ôi tem nêga de Ogum

De Oxalá, de Iemanjá

Mucama de Oxossi é caçador

Ora viva Nanã

Nanã Buruku

Yô yôo

Yô yôoo

No terreiro de preto velho iaiá

Vamos saravá (a quem meu pai?)

Xangô!

VIANA, G. Agô, Pixinguinha! 100 Anos. Som Livre, 1997

A canção Yaô foi composta na década de 1930 por

Pixinguinha, em parceria com Gastão Viana, que escreveu

a letra. O texto mistura o português com o iorubá, língua

usada por africanos escravizados trazidos para o Brasil.

Ao fazer uso do iorubá nessa composição, o autor


A proposta de um projeto como o "Pão e Poesia" objetiva

inovar em sua área de atuação, pois


O contexto histórico e literário do período barroco-

árcade fundamenta o poema Casa dos Contos, de 1975.

A restauração de elementos daquele contexto por uma

poética contemporânea revela que

João Antônio de Barros (Jota Barros) nasceu

aos 24 de junho de 1935, em Glória de Goitá (PE).

Marceneiro, entalhador, xilógrafo, poeta repentista e

escritor de literatura de cordel, já publicou 33 folhetos e

ainda tem vários inéditos. Reside em São Paulo desde

1973, vivendo exclusivamente da venda de livretos de

cordel e das cantigas de improviso, ao som da viola.

Grande divulgador da poesia popular nordestina no

Sul, tem dado frequentemente entrevistas à imprensa

paulista sobre o assunto.

EVARISTO, M. C. O cordel em sala de aula. In: BRANDÃO, H. N. (Coord.).

Gêneros do discurso na escola: mito, conto, cordel, discurso político,

A biografia é um gênero textual que descreve a

trajetória de determinado indivíduo, evidenciando sua

singularidade. No caso específico de uma biografia

como a de João Antônio de Barros, um dos principais

elementos que a constitui é

TEXTO I

Versos de amor

A um poeta erótico Oposto ideal ao meu ideal conservas. Diverso é, pois, o ponto outro de vista Consoante o qual, observo o amor, do egoísta Modo de ver, consoante o qual, o observas. Porque o amor, tal como eu o estou amando, É Espírito, é éter, é substãncia fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, Imponderabilíssima, e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! ANJOS, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996 (fragmento).

TEXTO II

Arte de amar Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus — ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993

Os Textos I e II apresentam diferentes pontos de vista sobre o tema amor. Apesar disso, ambos definem esse sentimento a partir da oposição entre

Ai se sêsse

Se um dia nois se gostasse

Se um dia nois se queresse

Se nois dois se empareasse

Se juntim nois dois vivesse

Se juntim nois dois morasse

Se juntim nois dois drumisse

Se juntim nois dois morresse

Se pro céu nois assubisse

Mas porém se acontecesse De São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse Te dizer qualquer tulice

E se eu me arriminasse E tu cum eu insistisse

Pra que eu me arresolvesse E a minha faca puxasse

E o bucho do céu furasse Tarvês que nois dois ficasse

Tarvês que nois dois caísse E o céu furado arriasse

E as virgi toda fugisse ZÉ DA LUZ. Cordel do Fogo Encantado. Recife: Álbum de estúdio, 2001

O poema foi construído com formas do português não padrão, tais como "juntim", "nois", "tarvês".

Essas formas legitimam-se na construção do texto, pois

Da timidez

Ser um tímido notório é uma contradição. O tímido tem

horror a ser notadom quanto mais a ser notório. Se ficou

notório por ser tímido, então tem que se explicar. Afinal,

que retumbante timidez é essa, que atrai tanta atenção?

Se ficou notório apesar de ser tímido, talvez estivesse se

enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas

um estratagema para ser notado. Tão secreto que nem

ele sabe. É como no paradoxo psicanalítico, só alguém

que se acha muito superior procura o analista para tratar

um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se

sentir inferior é doença.

[...]

O tímido tenta se convencer de que só tem problemas

com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido,

duas pessoas são uma multidão. Quando não consegue

escapar e se vê diante de uma plateia, o tímido não pensa

nos membros da plateia como indivíduos. Multiplica-os

por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois

ouvidos. Quatro vias, portanto, para receber suas gafes.

Não adianta pedir para a plateia fechar os olhos, ou tapar

um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido

pela metade. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma

pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que

seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas

virarem pó.

VERISSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

Entre as estratégias de progressão textual presentes

nesse trecho, identifica-se o emprego de elementos

conectores. Os elementos que evidenciam noções

semelhantes estão destacados em:

Famigerado

Com arranco, [o sertanejo] calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.

O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:

— Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?

ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988

A linguagem peculiar é um dos aspectos que conferem a Guimarães Rosa um lugar de destaque na literatura brasileira. No fragmento lido, a tensão entre a personagem e o narrador se estabelece porque

Vai, a Sol

Ora o pássaro careceu de fazer necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu. Já era de madrugadinha e o tempo estava inteiramente frio. Macunaíma acordou tremendo, todo lambuzado. Assim mesmo examinou bem a pedra mirim da ilhota para vê si não havia alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas.

Então passou Caivanogue, a estrela da manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu.

Caivanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.

— Vá tomar banho! — ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão "Vá tomar banho" que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus. ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008

O fragmento de texto faz parte do capítulo VII, intitulado "Vei, a Sol", do livro Macunaíma, de Mário de Andrade, pertencente à primeira fase do Modernismo brasileiro. Considerando a linguagem empregada pelo narrador, é possível identificar

Carta ao Tom 74

Rua Nascimento Silva, cento e sete

Você ensinando pra Elizete

As canções de canção do amor demais

Lembra que tempo feliz

Ah, que saudade,

Ipanema era só felicidade

Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia

A que ponto a cidade turvaria

Esse Rio de amor que se perdeu

Mesmo a tristeza da gente era mais bela

E além disso se via da janela

Um cantinho de céu e o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza,

É preciso acabar com essa tristeza

É preciso inventar de novo o amor

MORAES, V.; TOQUINHO. Bossa Nova, sua história, sua gente.

São Paulo: Universal; Philips,1975 (fragmento).

O trecho da canção de Toquinho e Vinícius de Moraes

apresenta marcas do gênero textual carta, possibilitando

que o eu poético e o interlocutor

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