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Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré história havia a préhistoria da pré historia e há via o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou.
[...]
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo incio, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes de pré pré historia já havia os monstros apocalípticos? Se esta historia não existe, passara a existir. Pensar é um ato.Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo [...]Felicidades? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Como eu ireis dizer agora, esta historia será o resultado de uma visao gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visao da iminência de.De que? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes
LISPECTOR. C . A hora da estrala. Rio de Janeiro; Rocco 1998 (fragmentado).



A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetoria literária de Clarice Lispector, culminada com a obra. A hora da estrela de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador

Concurso de microcontos no Twitter

A nona edição do Simpósio Internacional de

Contadores de História promove concurso de microcontos

baseado no Twitter. Os interessados devem ter uma

conta no Twitter, seguir o @simposioconta e escrever um

microconto de gênero suspense, com tema livre. O conto

deve seguir as regras do Twitter: apenas 140 caracteres.

ELINA, R. Disponível em: www.consuladosocial.com.br. Acesso em: 28 jul. 2010.

Na atualidade, o texto traz uma proposta de utilização do

Twitter como ferramenta que proporciona uma construção

rápida, sintética e definida pelo gênero suspense. Isso

demonstra que essa rede social pode ser uma forma de

inovação tecnológica que

Grupo escolar

Sonhei com um general de ombros largos

que fedia

e que no sonho me apontava a poesia

enquanto um pássaro pensava suas penas

e já sem resistência resistia.

O general acordou e eu que sonhava

face a face deslizei à dura via

vi seus olhos que tremiam, ombros largos,

vi seu queixo modelado a esquadria

vi que o tempo galopando evaporava

(deu para ver qual a sua dinastia)

mas em tempo fixei no firmamento

esta imagem que rebenta em ponta fria:

poesia, esta química perversa,

este arco que desvela e me repõe

nestes tempos de alquimia.

BRITO, A. C. In: HOLLANDA, H. B. (Org.). 26 Poetas Hoje: antologia.

Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998.

O poema de Antônio Carlos Brito está historicamente

inserido no período da ditadura militar no Brasil. A forma

encontrada pelo eu lírico para expressar poeticamente

esse momento demonstra que

O bonde abre a viagem,

No banco ninguém,

Estou só, stou sem.

Depois sobe um homem,

No banco sentou,

Companheiro vou.

O bonde está cheio,

De novo porém

Não sou mais ninguém.

ANDRADE, M. Poesias completas. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.

Em um texto literário, é comum que os recursos poéticos e

linguísticos participem do significado do texto, isto é, forma

e conteúdo se relacionam significativamente. Com relação

ao poema de Mário de Andrade, a correlação entre um

recurso formal e um aspecto da significação do texto é

Cegueira

Afastou–me da escola, atrasou–me, enquanto os

filhos de seu José Galvão se internavam em grandes

volumes coloridos, a doença de olhos que me perseguia

na meninice. Torturava–me semanas e semanas, eu vivia

na treva, o rosto oculto num pano escuro, tropeçando

nos móveis, guiando–me às apalpadelas, ao longo das

paredes. As pálpebras inflamadas colavam–se. Para

descerrá–las, eu ficava tempo sem fim mergulhando a

cara na bacia de água, lavando–me vagarosamente, pois

o contato dos dedos era doloroso em excesso. Finda a

operação extensa, o espelho da sala de visitas mostravame

dois bugalhos sangrentos, que se molhavam depressa

e queriam esconder–se. Os objetos surgiam empastados

e brumosos. Voltava a abrigar–me sob o pano escuro,

mas isto não atenuava o padecimento. Qualquer luz me

deslumbrava, feria–me como pontas de agulha [...].

Sem dúvida o meu espectro era desagradável, inspirava

repugnância. E a gente da casa se impacientava. Minha

mãe tinha a franqueza de manifestar–me viva antipatia.

Dava–me dois apelidos: bezerro–encourado e cabra–cega.

RAMOS, G. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1984 (fragmento).

O impacto da doença, na infância, revela–se no texto

memorialista de Graciliano Ramos através de uma atitude

marcada por

Uma tuiteratura?

As novidades sobre o Twitter já não cabem em

140 toques. Informações vindas dos EUA dão conta de

que a marca de 100 milhões de adeptos acaba de ser

alcançada e que a biblioteca do Congresso, um dos

principais templos da palavra impressa, vai guardar em

seu arquivo todos os tweets, ou seja, as mensagens

do microblog. No Brasil o fenômeno não chega a tanto,

mas já somos o segundo país com o maior número de

tuiteiros. Também aqui o Twitter está sendo aceito em

territórios antes exclusivos do papel. A própria Academia

Brasileira de Letras abriu um concurso de microcontos

para textos com apenas 140 caracteres. Também se fala

das possibilidades literárias desse meio que se caracteriza

pela concisão. Já há até um neologismo, “tuiteratura",

para indicar os “enunciados telegráficos com criações

originais, citações ou resumos de obras impressas". Por

ora, pergunto como se estivesse tuitando: querer fazer

literatura com palavras de menos não é pretensão demais?

VENTURA, Z. O Globo, 17 abr. 2010 (adaptado).

As novas tecnologias estão presentes na sociedade

moderna, transformando a comunicação por meio de

inovadoras linguagens. O texto de Zuenir Ventura mostra

que o Twitter tem sido acessado por um número cada vez

maior de internautas e já se insere até na literatura. Neste

contexto de inovações linguísticas, a linguagem do Twitter

apresenta como característica relevante

TEXTO I

A canção do africano

Lá na úmida senzala,

Sentado na estreita sala,

Junto ao braseiro, no chão,

entoa o escravo o seu canto,

E ao cantar correm–lhe em pranto

Saudades do seu torrão...

De um lado, uma negra escrava

Os olhos no filho crava,

Que tem no colo a embalar...

E à meia–voz lá responde

Ao canto, e o filhinho esconde,

Talvez p'ra não o escutar!

“Minha terra é lá bem longe,

Das bandas de onde o sol vem;

Esta terra é mais bonita,

Mas à outra eu quero bem."

ALVES, C. Poesias completas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995 (fragmento).



TEXTO II

No caso da Literatura Brasileira, se é verdade que

prevalecem as reformas radicais, elas têm acontecido

mais no âmbito de movimentos literários do que de

gerações literárias. A poesia de Castro Alves em relação

à de Gonçalves Dias não é a de negação radical, mas de

superação, dentro do mesmo espírito romântico.

O fragmento do poema de Castro Alves exemplifica a

afirmação de João Cabral de Melo Neto porque

Sambinha

Vêm duas costureirinhas pela rua das Palmeiras.

Afobadas braços dados depressinha

Bonitas, Senhor! que até dão vontade pros homens da rua.

As costureirinhas vão explorando perigos...

Vestido é de seda.

Roupa–branca é de morim.

Falando conversas fiadas

As duas costureirinhas passam por mim.

— Você vai?

— Não vou não!

Parece que a rua parou pra escutá–las.

Nem trilhos sapecas

Jogam mais bondes um pro outro.

E o Sol da tardinha de abril

Espia entre as pálpebras sapiroquentas de duas nuvens.

As nuvens são vermelhas.

A tardinha cor–de–rosa.

Fiquei querendo bem aquelas duas costureirinhas...

Fizeram–me peito batendo

Tão bonitas, tão modernas, tão brasileiras!

Isto é...

Uma era ítalo–brasileira.

Outra era áfrico–brasileira.

Uma era branca.

Outra era preta.

ANDRADE, M. Os melhores poemas. São Paulo: Global, 1988.

Os poetas do Modernismo, sobretudo em sua primeira

fase, procuraram incorporar a oralidade ao fazer poético,

como parte de seu projeto de configuração de uma

identidade linguística e nacional. No poema de Mário de

Andrade esse projeto revela–se, pois

Só é meu

O país que trago dentro da alma.

Entro nele sem passaporte

Como em minha casa.

[...]

As ruas me pertencem.

Mas não há casas nas ruas.

As casas foram destruídas desde a minha infância.

Os seus habitantes vagueiam no espaço

À procura de um lar.

[...]

Só é meu

O mundo que trago dentro da alma.

BANDEIRA, M. Um poema de Chagall. In: Estrela da vida inteira: poemas traduzidos.

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993 (fragmento).


A arte, em suas diversas manifestações, desperta

sentimentos que atravessam fronteiras culturais.

Relacionando a temática do texto com a imagem,

percebe–se a ligação entre a

TEXTO I

Poema de sete faces

Mundo mundo vasto mundo,

Se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

ANDRADE, C. D. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2001 (fragmento).



TEXTO II

CDA (imitado)

Ó vida, triste vida!

Se eu me chamasse Aparecida

dava na mesma.

FONTELA, O. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.

Orides Fontela intitula seu poema CDA, sigla de Carlos

Drummond de Andrade, e entre parênteses indica

“imitado" porque, como nos versos de Drummond,

Todo bom escritor tem o seu instante de graça, possui

a sua obra–prima, aquela que congrega numa estrutura

perfeita os seus dons mais pessoais. Para Dias Gomes

essa hora de inspiração veio–lhe no dia que escreveu

O pagador de promessas. Em torno de Zé–do–Burro —

herói ideal, por unir o máximo de caráter ao mínimo de

inteligência, naquela zona fronteiriça entre o idiota e o

santo — o enredo espalha a malícia e a maldade de uma

capital como Salvador, mitificada pela música popular

e pela literatura, na qual o explorador de mulheres se

chama inevitavelmente Bonitão, o poeta popular, Dedé

Cospe–Rima, e o mestre de capoeira, Manuelzinho Sua

Mãe. O colorido do quadro contrasta fortemente com a

simplicidade da ação, que caminha numa linha reta da

chegada de Zé–do–Burro à sua entrada trágica e triunfal na

igreja — não sob a cruz, conforme prometera, mas sobre

ela, carregado pelos capoeiras, “como um crucifixado".

PRADO, D. A. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 2008 (fragmento).

A avaliação crítica de Décio de Almeida Prado destaca as

qualidades de O pagador de promessas. Com base nas

ideias defendidas por ele, uma boa obra teatral deve

Agora eu era herói

E o meu cavalo só falava inglês.

A noiva do cowboy

Era você, além das outras três.

Eu enfrentava os batalhões,

Os alemães e seus canhões.

Guardava o meu bodoque

E ensaiava o rock para as matinês.

CHICO BUARQUE. João e Maria, 1977 (fragmento).

Nos terceiro e oitavo versos da letra da canção, constatase

que o emprego das palavras cowboy e rock expressa a

influência de outra realidade cultural na língua portuguesa.

Essas palavras constituem evidências de

Devemos dar apoio emocional específico, trabalhando

o sentimento de culpa que as mães têm de infectar o filho.

O principal problema que vivenciamos é quanto ao

aleitamento materno. Além do sentimento muito forte

manifestado pelas gestantes de amamentar seus filhos,

existem as cobranças da família, que exige explicações

pela recusa em amamentar, sem falar nas companheiras

na maternidade que estão amamentando. Esses conflitos

constituem nosso maior desafio. Assim, criamos a técnica

de mamadeirar. O que é isso? É substituir o seio materno

por amor, oferecendo a mamadeira, e não o peito!

PADOIN, S. M. M. et al. (Org.) Experiências interdisciplinares em Aids:

interfaces de uma epidemia. Santa Maria: UFSM, 2006 (adaptado).

O texto é o relato de uma enfermeira no cuidado de

gestantes e mães soropositivas. Nesse relato, em meio ao

drama de mães que não devem amamentar seus recémnascidos,

observa–se um recurso da língua portuguesa,

presente no uso da palavra “mamadeirar", que consiste

— É o diabo!... praguejava entre dentes o brutalhão,

enquanto atravessava o corredor ao lado do Conselheiro,

enfiando às pressas o seu inseparável sobretudo de casimira

alvadia. — É o diabo! Esta menina já devia ter casado!

— Disso sei eu... balbuciou o outro. — E não é por

falta de esforços de minha parte; creia!

— Diabo! Faz lástima que um organismo tão rico e

tão bom para procriar, se sacrifique desse modo! Enfim —

ainda não é tarde; mas, se ela não se casar quanto antes

— hum... hum!... Não respondo pelo resto!

— Então o Doutor acha que...?

Lobão inflamou–se: Oh! o Conselheiro não podia imaginar

o que eram aqueles temperamentozinhos impressionáveis!...

eram terríveis, eram violentos, quando alguém tentava

contrariá–los! Não pediam — exigiam — reclamavam!

AZEVEDO, A. O homem. Belo Horizonte: UFMG, 2003 (fragmento).

O romance O homem, de Aluísio Azevedo, insere–se

no contexto do Naturalismo, marcado pela visão do

cientificismo. No fragmento, essa concepção aplicada à

mulher define–se por uma

A rua

Bem sei que, muitas vezes,

O único remédio

É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,

A dívida, o divertimento,

O pedido de emprego, ou a própria alegria.

A esperança é também uma forma

De contínuo adiamento.

Sei que é preciso prestigiar a esperança,

Numa sala de espera.

Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,

Esperança sentada.

Não abdicação diante da vida.

A esperança

Nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera.

Nunca é figura de mulher

Do quadro antigo.

Sentada, dando milho aos pombos.

RICARDO, C. Disponível em: www.revista.agulha.nom.br. Acesso em: 2 jan. 2012.

O poema de Cassiano Ricardo insere–se no Modernismo

brasileiro. O autor metaforiza a crença do sujeito lírico

numa relação entre o homem e seu tempo marcada por

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