eu acho um fato interessante... né... foi como meu pai e
minha mãe vieram se conhecer... né... que... minha mãe
morava no Piauí com toda família... né... meu... meu
avô... materno no caso... era maquinista... ele sofreu um
acidente... infelizmente morreu... minha mãe tinha cinco
anos... né... e o irmão mais velho dela... meu padrinho...
tinha dezessete e ele foi obrigado a trabalhar... foi trabalhar
no banco... e... ele foi... o banco... no caso... estava...
com um número de funcionários cheio e ele teve que ir
para outro local e pediu transferência prum local mais
perto de Parnaíba que era a cidade onde eles moravam
e por engano o... o... escrivão entendeu Paraíba... né...
e meu... e minha família veio parar em Mossoró que
era exatamente o local mais perto onde tinha vaga pra
funcionário do Banco do Brasil e:: ela foi parar na rua do
meu pai... né... e começaram a se conhecer... namoraram
onze anos... né... pararam algum tempo... brigaram... é
lógico... porque todo relacionamento tem uma briga... né...
e eu achei esse fato muito interessante porque foi uma
coincidência incrível... né... como vieram a se conhecer...
namoraram e hoje... e até hoje estão juntos... dezessete
anos de casados…
CUNHA, M. A. F. (Org.). Corpus, discurso & gramática: a língua falada
e escrita na cidade de Natal. Natal: EdUFRN, 1998
Na produção dos textos, orais ou escritos, articulamos as
informações por meio de relações de sentido. No trecho
de fala, a passagem “brigaram... é lógico... porque todo
relacionamento tem uma briga", enuncia uma justificativa
em que "brigaram" e "todo relacionamento tem uma briga"
são, respectivamente,
Sem acessórios nem som
Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato.
Nesse texto, a reflexão sobre o processo criativo aponta
para uma concepção de atividade poética que põe em
evidência o(a)
Nos anos de 1920, a necessidade de modernizar o Brasil refletiu-se na proposta de renovação estética defendida por artistas modernistas como Raul Bopp. No poema, o posicionamento favorável às transformações da sociedade brasileira aparece diretamente relacionado à experimentação na poesia. A relação direta entre modernização e procedimento estético no poema deve-se à correspondência entre
A poesia de Murilo Mendes dialoga com o ideário poético dos primeiros modernistas. No poema, essa atitude manifesta-se na
Esaú e Jacó
Ora, aí está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe
quisesse pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não é
somente um meio de completar as pessoas da narração
com as ideias que deixarem, mas ainda um par de lunetas
para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou
totalmente escuro.
Por outro lado, há proveito em irem as pessoas da
minha história colaborando nela, ajudando o autor, por
uma lei de solidariedade, espécie de troca de serviços,
entre o enxadrista e os seus trebelhos.
Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama,
o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer de torre,
nem a torre de peão. Há ainda a diferença da cor, branca
e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada
peça, e afinal umas e outras podem ganham a partida, e
assim vai o mundo.
ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1964 (fragmento).
O fragmento do romance Esaú e Jacó mostra como o
narrador concebe a leitura de um texto literário. Com base
nesse trecho, tal leitura deve levar em conta
Galinha cega
O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a,
lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a
Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais
milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada.
Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse.
Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as
outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela
desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do
céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se
soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque
da vizinhança, aí… Nem por sombra imaginou que era a
cegueira irremediável que principiava.
Também a galinha, coitada, não compreendia nada,
absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais
os dias luminosos em que procurava a sombra das
pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase
sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que
estava a luz, onde é que estava a sombra.
Ao apresentar uma cena em que um menino atira milho
às galinhas e observa com atenção uma delas, o narrador
explora um recurso que conduz a uma expressividade
fundamentada na
Querido diário
Hoje topei com alguns conhecidos meus
Me dão bom-dia, cheios de carinho
Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus
Eles têm pena de eu viver sozinho
[...]
Hoje o inimigo veio me espreitar
Armou tocaia lá na curva do rio
Trouxe um porrete a mó de me quebrar
Mas eu não quebro porque sou macio, viu
HOLANDA, C. B. Chico. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2013 (fragmento).
Uma característica do gênero diário que aparece na letra
da canção de Chico Buarque é o(a)
O texto de Bernardo Guimarães é representativo da estética romântica. Entre as marcas textuais que evidenciam a filiação a esse movimento literário está em destaque a
No trecho, retirado do conto Retábulo de Santa Joana Carolina, de Osman Lins, a fim de expressar uma ideia relativa
à literatura, o autor emprega um procedimento singular de escrita, que consiste em
Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira livre e morava
no morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e
morreu afogado.
BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira: poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980
No poema de Manuel Bandeira, há uma ressignificação
de elementos da função referencial da linguagem pela
O último longa de Carlão acompanha a operária
Silmara, que vive com o pai, um ex-presidiário, numa casa
da periferia paulistana. Ciente de sua beleza, o que lhe
dá certa soberba, a jovem acredita que terá um destino
diferente do de suas colegas. Cruza o caminho de dois
cantores por quem é apaixonada. E constata, na prática,
que o romantismo dos contos de fada tem perna curta.
VOMERO, M. F. Romantismo de araque. Vida Simples, n. 121, ago. 2012
Reconhece-se, nesse trecho, uma posição crítica aos
ideais de amor e felicidade encontrados nos contos de
fada. Essa crítica é traduzida
Cântico VI
Tu tens um medo de
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1963 (fragmento).
A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o
homem em seu aspecto existencial. Em Cântico VI, o eu
lírico exorta seu interlocutor a perceber, como inerente à
condição humana,
da sua memória
mil
e
mui
tos
out
ros
ros
tos
sol
tos
pou
coa
pou
coa
pag
amo
meu
ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998
Trabalhando com recursos formais inspirados no
Concretismo, o poema atinge uma expressividade que se
caracteriza pela
Tudo era harmonioso, sólido, verdadeiro. No princípio.
As mulheres, principalmente as mortas do álbum, eram
maravilhosas. Os homens, mais maravilhosos ainda, ah,
difícil encontrar família mais perfeita. A nossa família,
dizia a bela voz de contralto da minha avó. Na nossa
família, frisava, lançando em redor olhares complacentes,
lamentando os que não faziam parte do nosso clã. [...]
Quando Margarida resolveu contar os podres todos que
sabia naquela noite negra da rebelião, fiquei furiosa [...]
É mentira, é mentira!, gritei tapando os ouvidos. Mas
Margarida seguia em frente: tio Maximiliano se casou
com a inglesa de cachos só por causa do dinheiro, não
passava de um pilantra, a loirinha feiosa era riquíssima.
Tia Consuelo? Ora, tia Consuelo chorava porque sentia
falta de homem, ela queria homem e não Deus, ou
o convento ou o sanatório. O dote era tão bom que o
convento abriu-lhe as portas com loucura e tudo.
" E tem mais coisas ainda, minha queridinha", anunciou
Margarida fazendo um agrado no meu queixo. Reagi com
violência: uma agregada, uma cria e, ainda por cima,
mestiça. Como ousava desmoralizar meus heróis?
Representante da ficção contemporânea, a prosa de Lygia
Fagundes Telles configura e desconstrói modelos sociais.
No trecho, a percepção do núcleo familiar descortina um(a)
Quem não se recorda de Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira seu fulgor? Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia. Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros. Aurélia era órfã; tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade. Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina. Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse. Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa entidade era desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha parenta.
ALENCAR, J. Senhora. São Paulo: Ática, 2006
O romance Senhora, de José de Alencar, foi publicado em 1875 . No fragmento transcrito, a presença de D. Firmina Mascarenhas como "parenta" de Aurelia Camargo assimila práticas e convenções sociais inseridas no contexto do Romantismo, pois