Érico Veríssimo relata, em suas memórias, um episódio da
adolescência que teve influência significativa em sua
carreira de escritor.
" Lembro-me de que certa noite - eu teria uns quatorze
anos, quando muito - encarregaram-me de segurar uma
lâmpada elétrica à cabeceira da mesa de operações,
enquanto um médico fazia os primeiros curativos num
pobre-diabo que soldados da Polícia Municipal haviam
"carneado". (...) Apesar do horror e da náusea, continuei
firme onde estava, talvez pensando assim: se esse caboclo
pode agüentar tudo isso sem gemer, por que não hei de
poder ficar segurando esta lâmpada para ajudar o doutor a
costurar esses talhos e salvar essa vida? (...)
Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me
animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor
pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a
nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a
realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a
escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos
tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e
do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica,
acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso,
risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que
não desertamos nosso posto."
VERÍSSIMO, Érico. Solo de Clarineta. Tomo I. Porto Alegre:
Editora Globo, 1978
Neste texto, por meio da metáfora da lâmpada que ilumina
a escuridão, Érico Veríssimo define como uma das funções
do escritor e, por extensão, da literatura,

Podem ser relacionadas ao texto lido as partes:
No trecho abaixo, o narrador, ao descrever a personagem, critica sutilmente um outro estilo
de época: o romantismo.
“Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida
criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a
primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor
sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe
maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da
natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo,
para os fins secretos da criação.”
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Jackson,1957
A frase do texto em que se percebe a crítica do narrador ao romantismo está transcrita na
alternativa:
Murilo Mendes, em um de seus poemas, dialoga com a carta de Pero Vaz de Caminha:
“A terra é mui graciosa,
Tão fértil eu nunca vi.
A gente vai passear,
No chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce
Bengala de castão de oiro.
Tem goiabas, melancias,
Banana que nem chuchu.
Quanto aos bichos, tem-nos muito,
De plumagens mui vistosas.
Tem macaco até demais
Diamantes tem à vontade
Esmeralda é para os trouxas.
Reforçai, Senhor, a arca,
Cruzados não faltarão,
Vossa perna encanareis,
Salvo o devido respeito.
Ficarei muito saudoso
Se for embora daqui".
MENDES, Murilo. Murilo Mendes — poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994
Arcaísmos e termos coloquiais misturam-se nesse poema, criando um efeito de contraste,
como ocorre em:
O trecho a seguir é parte do poema “Mocidade e morte”, do poeta romântico Castro Alves:
Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
–– Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.
ALVES, Castro. Os melhores poemas de Castro Alves. Seleção de Lêdo Ivo. São Paulo: Global, 1983
Esse poema, como o próprio título sugere, aborda o inconformismo do poeta com a
antevisão da morte prematura, ainda na juventude.
A imagem da morte aparece na palavra
O mundo é grande
O mundo é grande e cabe
Nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
Na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
No breve espaço de beijar.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983
Neste poema, o poeta realizou uma opção estilística: a reiteração de determinadas construções
e expressões lingüísticas, como o uso da mesma conjunção para estabelecer a relação entre as
frases. Essa conjunção estabelece, entre as idéias relacionadas, um sentido de
?Precisa-se nacionais sem nacionalismo, (...) movidos pelo presente mas
estalando naquele cio racial que só as tradições maduram! (...). Precisa-se
gentes com bastante meiguice no sentimento, bastante força na peitaria,
bastante paciência no entusiasmo e sobretudo, oh! sobretudo bastante
vergonha na cara!
(...) Enfim: precisa-se brasileiros! Assim está escrito no anúncio vistoso de
cores desesperadas pintado sobre o corpo do nosso Brasil, camaradas.
(Jornal A Noite, São Paulo, 18/12/1925 apud LOPES, Telê Porto Ancona. Mário
de Andrade: ramais e caminhos. São Paulo: Duas Cidades, 1972)
No trecho acima, Mário de Andrade dá forma a um dos itens do ideário
modernista, que é o de firmar a feição de uma língua mais autêntica,
“brasileira", ao expressar-se numa variante de linguagem popular identificada
pela (o):
O texto abaixo foi extraído de uma crônica de Machado de Assis e refere-se ao
trabalho de um escravo.
?Um dia começou a guerra do Paraguai e durou cinco anos, João repicava e
dobrava, dobrava e repicava pelos mortos e pelas vitórias. Quando se
decretou o ventre livre dos escravos, João é que repicou. Quando se fez a
abolição completa, quem repicou foi João. Um dia proclamou-se a
República. João repicou por ela, repicaria pelo Império, se o Império
retornasse.
(MACHADO, Assis de. Crônica sobre a morte do escravo João, 1897)
A leitura do texto permite afirmar que o sineiro João:
Ferreira Gullar, um dos grandes poetas brasileiros da atualidade, é autor de
“Bicho urbano", poema sobre a sua relação com as pequenas e grandes
cidades.
Bicho urbano
Se disser que prefiro morar em Pirapemas
ou em outra qualquer pequena cidade do país
estou mentindo
ainda que lá se possa de manhã
lavar o rosto no orvalho
e o pão preserve aquele branco
sabor de alvorada.
.....................................................................
A natureza me assusta.
Com seus matos sombrios suas águas
suas aves que são como aparições
me assusta quase tanto quanto
esse abismo
de gases e de estrelas
aberto sob minha cabeça.
(GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro:
José Olympio Editora, 1991)
Embora não opte por viver numa pequena cidade, o poeta reconhece elementos
de valor no cotidiano das pequenas comunidades. Para expressar a relação do
homem com alguns desses elementos, ele recorre à sinestesia, construção de
linguagem em que se mesclam impressões sensoriais diversas. Assinale a
opção em que se observa esse recurso.
“Poética", de Manuel Bandeira, é quase um manifesto do movimento
modernista brasileiro de 1922. No poema, o autor elabora críticas e propostas
que representam o pensamento estético predominante na época.
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e
[manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
[cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
............................................................................................
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
(BANDEIRA, Manuel. Poesia Completa e Prosa.
Rio de Janeiro. Aguilar, 1974)
Com base na leitura do poema, podemos afirmar corretamente que o poeta: