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O último longa de Carlão acompanha a operária

Silmara, que vive com o pai, um ex-presidiário, numa casa

da periferia paulistana. Ciente de sua beleza, o que lhe

dá certa soberba, a jovem acredita que terá um destino

diferente do de suas colegas. Cruza o caminho de dois

cantores por quem é apaixonada. E constata, na prática,

que o romantismo dos contos de fada tem perna curta.

VOMERO, M. F. Romantismo de araque. Vida Simples, n. 121, ago. 2012

Reconhece-se, nesse trecho, uma posição crítica aos

ideais de amor e felicidade encontrados nos contos de

fada. Essa crítica é traduzida

da sua memória

mil

e

mui

tos

out

ros

ros

tos

sol

tos

pou

coa

pou

coa

pag

amo

meu

ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998

Trabalhando com recursos formais inspirados no

Concretismo, o poema atinge uma expressividade que se

caracteriza pela

Tudo era harmonioso, sólido, verdadeiro. No princípio.

As mulheres, principalmente as mortas do álbum, eram

maravilhosas. Os homens, mais maravilhosos ainda, ah,

difícil encontrar família mais perfeita. A nossa família,

dizia a bela voz de contralto da minha avó. Na nossa

família, frisava, lançando em redor olhares complacentes,

lamentando os que não faziam parte do nosso clã. [...]

Quando Margarida resolveu contar os podres todos que

sabia naquela noite negra da rebelião, fiquei furiosa [...]

É mentira, é mentira!, gritei tapando os ouvidos. Mas

Margarida seguia em frente: tio Maximiliano se casou

com a inglesa de cachos só por causa do dinheiro, não

passava de um pilantra, a loirinha feiosa era riquíssima.

Tia Consuelo? Ora, tia Consuelo chorava porque sentia

falta de homem, ela queria homem e não Deus, ou

o convento ou o sanatório. O dote era tão bom que o

convento abriu-lhe as portas com loucura e tudo.

" E tem mais coisas ainda, minha queridinha", anunciou

Margarida fazendo um agrado no meu queixo. Reagi com

violência: uma agregada, uma cria e, ainda por cima,

mestiça. Como ousava desmoralizar meus heróis?

Representante da ficção contemporânea, a prosa de Lygia

Fagundes Telles configura e desconstrói modelos sociais.

No trecho, a percepção do núcleo familiar descortina um(a)

Primeiro surgiu o homem nu de cabeça baixa.

Deus veio num raio. Então apareceram os bichos que

comiam os homens. E se fez o fogo, as especiarias, a

roupa, a espada e o dever. Em seguida se criou a filosofia,

que explicava como não fazer o que não devia ser feito.

Então surgiram os números racionais e a História,

organizando os eventos sem sentido. A fome desde

sempre, das coisas e das pessoas. Foram inventados o

calmante e o estimulante. E alguém apagou a luz. E cada

um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas

que alcança.

BONASSI, F. 15 cenas do descobrimento de Brasis. In: MORICONI, Í. (Org.).

Os cem melhores contos do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

A narrativa enxuta e dinâmica de Fernando Bonassi

configura um painel evolutivo da história da humanidade.

Nele, a projeção do olhar contemporâneo manifesta uma

percepção que

Aquarela

O corpo no cavalete

é um pássaro que agoniza

exausto do próprio grito.

As vísceras vasculhadas

principiam a contagem

regressiva.

No assoalho o sangue

se decompõe em matizes

que a brisa beija e balança:

o verde – de nossas matas

o amarelo – de nosso ouro

o azul – de nosso céu

o branco o negro o negro

CACASO. In: HOLLANDA, H. B (Org.). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007

Situado na vigência do Regime Militar que governou o

Brasil, na década de 1970, o poema de Cacaso edifica

uma forma de resistência e protesto a esse período,

metaforizando

TEXTO I

Voluntário

Rosa tecia redes, e os produtos de sua pequena indústria gozavam de boa fama nos arredores. A reputação da tapuia crescera com a feitura de uma maqueira de tucum ornamentada com a coroa brasileira, obra de ingênuo gosto, que lhe valera a admiração de toda a comarca e provocara a inveja da célebre Ana Raimunda, de Óbidos, a qual chegara a formar uma fortunazinha com aquela especialidade, quando a indústria norte-americana reduzira à inatividade os teares rotineiros do Amazonas. SOUSA, I. Contos amazônicos. São Paulo: Martins Fontes, 2004

TEXTO II

Relato de um certo oriente

Emilie, ao contrário de meu pai, de Dorner e dos nossos vizinhos, não tinha vivido no interior do Amazonas. Ela, como eu, jamais atravessara o rio. Manaus era o seu mundo visível. O outro latejava na sua memória. Imantada por uma voz melodiosa, quase encantada, Emilie maravilha-se com a descrição da trepadeira que espanta a inveja, das folhas malhadas de um tajá que reproduz a fortuna de um homem, das receitas de curandeiros

que veem em certas ervas da floresta o enigma das doenças mais temíveis, com as infusões de coloração sanguínea aconselhadas para aliviar trinta e seis dores do corpo humano. "E existem ervas que não curam nada", revelava a lavadeira, "mas assanham a mente da gente. Basta tomar um gole do líquido fervendo para que o cristão sonhe uma única noite muitas vidas diferentes". Esse relato poderia ser de duvidosa veracidade para outras pessoas, mas não para Emilie. HATOUM, M. São Paulo: Cia. das Letras, 2008

As representações da Amazônia na literatura brasileira mantêm relação com o papel atribuído à região na construção do imaginário nacional. Pertencentes a contextos históricos distintos, os fragmentos diferenciam-se ao propor uma representação da realidade amazônica em que se evidenciam

Yaô

Aqui có no terreiro

Pelú adié

Faz inveja pra gente

Que não tem mulher

No jacutá de preto velho

Há uma festa de yaô

Ôi tem nêga de Ogum

De Oxalá, de Iemanjá

Mucama de Oxossi é caçador

Ora viva Nanã

Nanã Buruku

Yô yôo

Yô yôoo

No terreiro de preto velho iaiá

Vamos saravá (a quem meu pai?)

Xangô!

VIANA, G. Agô, Pixinguinha! 100 Anos. Som Livre, 1997

A canção Yaô foi composta na década de 1930 por

Pixinguinha, em parceria com Gastão Viana, que escreveu

a letra. O texto mistura o português com o iorubá, língua

usada por africanos escravizados trazidos para o Brasil.

Ao fazer uso do iorubá nessa composição, o autor


A proposta de um projeto como o "Pão e Poesia" objetiva

inovar em sua área de atuação, pois

João Antônio de Barros (Jota Barros) nasceu

aos 24 de junho de 1935, em Glória de Goitá (PE).

Marceneiro, entalhador, xilógrafo, poeta repentista e

escritor de literatura de cordel, já publicou 33 folhetos e

ainda tem vários inéditos. Reside em São Paulo desde

1973, vivendo exclusivamente da venda de livretos de

cordel e das cantigas de improviso, ao som da viola.

Grande divulgador da poesia popular nordestina no

Sul, tem dado frequentemente entrevistas à imprensa

paulista sobre o assunto.

EVARISTO, M. C. O cordel em sala de aula. In: BRANDÃO, H. N. (Coord.).

Gêneros do discurso na escola: mito, conto, cordel, discurso político,

A biografia é um gênero textual que descreve a

trajetória de determinado indivíduo, evidenciando sua

singularidade. No caso específico de uma biografia

como a de João Antônio de Barros, um dos principais

elementos que a constitui é

Ai se sêsse

Se um dia nois se gostasse

Se um dia nois se queresse

Se nois dois se empareasse

Se juntim nois dois vivesse

Se juntim nois dois morasse

Se juntim nois dois drumisse

Se juntim nois dois morresse

Se pro céu nois assubisse

Mas porém se acontecesse De São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse Te dizer qualquer tulice

E se eu me arriminasse E tu cum eu insistisse

Pra que eu me arresolvesse E a minha faca puxasse

E o bucho do céu furasse Tarvês que nois dois ficasse

Tarvês que nois dois caísse E o céu furado arriasse

E as virgi toda fugisse ZÉ DA LUZ. Cordel do Fogo Encantado. Recife: Álbum de estúdio, 2001

O poema foi construído com formas do português não padrão, tais como "juntim", "nois", "tarvês".

Essas formas legitimam-se na construção do texto, pois

Da timidez

Ser um tímido notório é uma contradição. O tímido tem

horror a ser notadom quanto mais a ser notório. Se ficou

notório por ser tímido, então tem que se explicar. Afinal,

que retumbante timidez é essa, que atrai tanta atenção?

Se ficou notório apesar de ser tímido, talvez estivesse se

enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas

um estratagema para ser notado. Tão secreto que nem

ele sabe. É como no paradoxo psicanalítico, só alguém

que se acha muito superior procura o analista para tratar

um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se

sentir inferior é doença.

[...]

O tímido tenta se convencer de que só tem problemas

com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido,

duas pessoas são uma multidão. Quando não consegue

escapar e se vê diante de uma plateia, o tímido não pensa

nos membros da plateia como indivíduos. Multiplica-os

por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois

ouvidos. Quatro vias, portanto, para receber suas gafes.

Não adianta pedir para a plateia fechar os olhos, ou tapar

um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido

pela metade. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma

pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que

seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas

virarem pó.

VERISSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

Entre as estratégias de progressão textual presentes

nesse trecho, identifica-se o emprego de elementos

conectores. Os elementos que evidenciam noções

semelhantes estão destacados em:

O negócio



Grande sorriso do canino de ouro, o velho Abílio propõe às donas que se abastecem de pão e banana:

— Como é o negócio?

De cada três dá certo com uma. Ela sorri, não responde ou é uma promessa a recusa:

— Deus me livre, não! Hoje não…

Abílio interpelou a velha:

— Como é o negócio?

Ela concordou e, o que foi melhor, a filha também aceitou o trato. Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou:

— Como é o negócio?

Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ele trazia a capa de viagem, estendida na grama orvalhada.

O vizinho espionou os dois, aprendeu o sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepúsculo, pum–pum, duas pancadas fortes na porta. O marido em viagem, mas não era dia do Abílio. Desconfiada, a moça surgiu à janela e o vizinho repetiu:

— Como é o negócio?

Diante da recusa, ele ameaçou:

— Então você quer o velho e não quer o moço? Olhe que eu conto!

TREVISAN, D. Mistérios de Curitiba. Rio de Janeiro. Record,1979 (fragmento)



Quanto à abordagem do tema e aos recursos expressivos, essa crônica tem um caráter

A literatura de cordel é ainda considerada, por muitos, uma literatura menor. A alma do homem não é mensurável e — desde que o cordel possa exprimir a história, a ideologia e os sentimentos de qualquer homem — vai ser sempre o gênero literário preferido de quem procura apreender o espírito nordestino. Os costumes, a língua, os sonhos, os medos e as alegrias do povo estão no cordel. Na nossa época, apesar dos jornais e da TV — que poderiam ter feito diminuir o interesse neste tipo de literatura — e da falta de apoio econõmico, o cordel continua vivo no interior e em cenáculos acadêmicos.

A literatura de cordel, as xilogravuras e o repente não foram apenas um divertimento do povo. Cordéis e cantorias foram o professor que ensinava as primeiras letras e o médico que falava para inculcar comportamentos sanitários. O cordel e o repente fazem, muitas vezes, de um candidato o ganhador da banca de deputado. E assim, lendo e ouvindo, foi-se formando a memória coletiva desse povo alegre e trabalhador, que embora calmo, enfrenta o mar e o sertão com a mesma valentia.

BRICKMANN, L. B. E de repente foi o cordel. Disponível em: http://pt.scribd.com. Acesso em: 29 fev. 2012 (fragmento).

O gênero textual cordel, também conhecido como folheto, tem origem em relatos orais e constitui uma forma literária popular no Brasil. A leitura do texto sobre a literatura de cordel permite

Logo todos na cidade souberam: Halim se embeiçara

por Zana. As cristãs maronitas de Manaus, velhas e

moças, não aceitavam a ideia de ver Zana casar–se com

um muçulmano. Ficavam de vigília na calçada do Biblos,

encomendavam novenas para que ela não se casasse

com Halim. Diziam a Deus e ao mundo fuxicos assim: que

ele era um mascate, um teque–teque qualquer, um rude,

um maometano das montanhas do sul do Líbano que se

vestia como um pé rapado e matraqueava nas ruas e

praças de Manaus. Galib reagiu, enxotou as beatas: que

deixassem sua filha em paz, aquela ladainha prejudicava

o movimento do Biblos. Zana se recolheu ao quarto. Os

clientes queriam vê–la, e o assunto do almoço era só este:

a reclusão da moça, o amor louco do “maometano".

HATOUM, M. Dois irmãos. São Paulo: Cia. das Letras, 2006 (fragmento).

Dois irmãos narra a história da família que Halim e

Zana formaram na segunda metade do século XX.

Considerando o perfil sociocultural das personagens e os

valores sociais da época, a oposição ao casamento dos

dois evidencia

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem

de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.

Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz

por trás de sua casa se chama enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia

uma volta atrás da casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

BARROS, M. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Manoel de Barros desenvolve uma poética singular,

marcada por “narrativas alegóricas", que transparecem

nas imagens construídas ao longo do texto. No poema,

essa característica aparece representada pelo uso do

recurso de

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