Por que alguns estudantes não conseguem aprender?

Quando um aluno apresenta dificuldades, reprova ou abandona a escola, é comum que as explicações recaiam sobre sua falta de interesse, suas condições familiares ou suas supostas limitações individuais. Mas será que o fracasso escolar pode ser compreendido dessa maneira?

Para concursos na área da Educação, esse é um tema importante porque envolve concepções de aprendizagem, desigualdade social, avaliação e responsabilidade da escola.

Uma referência central para essa discussão é Maria Helena Souza Patto, autora de A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia.

O fracasso escolar é responsabilidade de quem?

Durante muito tempo, as dificuldades de aprendizagem foram explicadas principalmente por características individuais dos estudantes. Nessa perspectiva, o aluno que não aprendia era considerado menos capaz ou desinteressado.

Também ganharam força explicações relacionadas à chamada teoria da carência cultural, segundo a qual crianças das camadas populares apresentariam dificuldades em razão de supostas limitações culturais de suas famílias.

Essas interpretações responsabilizam estudantes e familiares pelo insucesso escolar e deixam em segundo plano as condições sociais e institucionais em que a escolarização acontece.

Patto questiona essas explicações. Em sua obra, publicada originalmente em 1990, a autora analisa criticamente as interpretações tradicionais e demonstra que o fracasso não pode ser compreendido como resultado exclusivo de características individuais ou familiares.

É preciso observar as relações sociais, as práticas pedagógicas, as expectativas dos professores, as formas de avaliação e as desigualdades que atravessam a sociedade.

De olho na questão

Banca: FUNDATEC · Concurso: Prefeitura de Montenegro – RS · Cargo: Apoio Pedagógico – Orientação · Ano: 2025

De acordo com Patto (1999), analise as seguintes asserções e a relação proposta entre elas:

I. Atribuir o fracasso escolar unicamente à falta de empenho dos alunos corresponde a uma visão superficial, reducionista e excludente.

PORQUE

II. O fracasso escolar constitui um fenômeno multicausal, que envolve tanto fatores externos (socioeconômicos, culturais etc.) quanto internos (práticas pedagógicas, gestão escolar etc.).

A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.

  • a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa da I.
  • b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justificativa da I.
  • c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
  • d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
  • e) As asserções I e II são proposições falsas.

Gabarito: A

Comentário: A alternativa A está correta. As duas afirmações são verdadeiras, e a segunda justifica a primeira. O fracasso escolar não pode ser atribuído exclusivamente ao estudante, pois envolve fatores sociais e institucionais, incluindo as práticas pedagógicas.

A escola também participa da produção do fracasso

Reconhecer a dimensão social do fracasso escolar não significa desconsiderar as dificuldades individuais ou os contextos familiares. Significa compreender que esses aspectos não explicam, isoladamente, o não aprender.

A própria organização escolar pode criar obstáculos à aprendizagem: práticas avaliativas classificatórias, currículos pouco relacionados às experiências dos estudantes, expectativas reduzidas em relação às crianças das classes populares e estratégias pedagógicas que não consideram diferentes ritmos e necessidades.

Imagine um estudante com dificuldades de leitura e escrita. Se a escola apenas registra resultados insatisfatórios e o considera incapaz, pouco contribui para mudar a situação.

Outra postura seria investigar os conhecimentos já construídos, identificar dificuldades específicas e reorganizar as estratégias de ensino.

Nesse debate, Bernard Charlot contribui ao discutir a relação do sujeito com o saber. Aprender envolve sentidos, relações e experiências construídas em determinado contexto.

O estudante não é um receptor passivo: sua relação com o conhecimento também depende de sua trajetória e das oportunidades que encontra.

quadro "Fracasso escolar × reprovação × evasão — não são sinônimos"
quadro “Fracasso escolar × reprovação × evasão — não são sinônimos”

Fracasso escolar, reprovação e evasão

O fracasso escolar aparece associado a indicadores como reprovação, distorção idade-série, abandono e dificuldades persistentes de aprendizagem. Embora relacionados, esses fenômenos não são sinônimos.

A reprovação ocorre quando o estudante não alcança os critérios estabelecidos para aprovação. A evasão e o abandono estão relacionados à interrupção da trajetória escolar. Já as dificuldades de aprendizagem podem se manifestar de diferentes maneiras e não conduzem necessariamente à reprovação.

A permanência na escola, por si só, também não garante a aprendizagem. Um estudante pode frequentar as aulas e avançar de ano sem consolidar conhecimentos fundamentais. Por isso, enfrentar o fracasso escolar exige considerar acesso, permanência e qualidade das experiências educativas.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) estabelece, no artigo 12, inciso V, que cabe à escola prover meios para a recuperação dos estudantes de menor rendimento. O artigo 13, inciso IV, atribui aos docentes a responsabilidade de estabelecer estratégias de recuperação.

Essas disposições reforçam que as dificuldades exigem acompanhamento e intervenção pedagógica.

De olho na questão

Banca: ISET · Concurso: Prefeitura de Amélia Rodrigues – BA · Cargo: Psicopedagogo · Ano: 2026

À luz das análises de Maria Helena Souza Patto em A produção do fracasso escolar, assinale a interpretação que melhor explica o baixo desempenho e a exclusão de estudantes das classes populares.

  • a) Resultam do distanciamento entre a cultura familiar e os padrões linguísticos valorizados pela escola.
  • b) Decorrem de dificuldades individuais agravadas pela precariedade das condições de ensino.
  • c) São produzidos em relações e práticas escolares articuladas às desigualdades e aos preconceitos sociais.
  • d) Expressam desigualdades anteriores à escolarização, reproduzidas por critérios institucionais neutros.
  • e) Originam-se da incompatibilidade entre métodos pedagógicos e níveis de desenvolvimento dos estudantes.

Gabarito: C

Comentário: A alternativa C está correta porque expressa a perspectiva crítica de Patto. O fracasso escolar não é consequência natural da origem social ou das características individuais, mas um fenômeno produzido também nas relações e práticas institucionais, atravessadas por desigualdades e preconceitos.

Como enfrentar o fracasso escolar?

Superar o fracasso escolar exige ações que ultrapassem medidas pontuais ou punitivas. A escola precisa organizar práticas de acompanhamento e intervenção que considerem as necessidades dos estudantes e as condições concretas de ensino.

Entre as possibilidades estão o diagnóstico contínuo das aprendizagens, a diversificação das estratégias didáticas, a recuperação dos conteúdos, o acompanhamento pedagógico e o diálogo com as famílias.

Também é fundamental investir na formação dos professores e construir um ambiente escolar que reconheça as diferenças sem transformá-las em justificativas para a exclusão.

A avaliação tem papel central. Quando utilizada apenas para classificar, selecionar ou reprovar, pode reforçar trajetórias de insucesso. Quando assume caráter diagnóstico e formativo, permite identificar dificuldades, acompanhar avanços e orientar intervenções.

Enfrentar o fracasso escolar significa, portanto, reconhecer que ensinar e aprender são processos relacionados e que a escola precisa rever continuamente suas práticas para assegurar o direito à aprendizagem.

Última dica para a prova

Guarde três ideias:

  • O fracasso escolar não é responsabilidade exclusiva do aluno ou da família;
  • A escola precisa analisar criticamente suas práticas e condições de ensino;
  • As dificuldades exigem acompanhamento e intervenção pedagógica, não apenas classificação ou reprovação.

Para aprofundar, conheça A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia, de Maria Helena Souza Patto, referência fundamental para compreender os processos de desigualdade e exclusão na educação brasileira.

Gostou do conteúdo? Compartilhe com aquele colega que também está na reta final dos estudos e comente aqui embaixo qual autor você acha que mais cai nas provas de Educação. Bons estudos e rumo à aprovação!

Perguntas Frequentes

O que é fracasso escolar?

É o conjunto de fenômenos ligados ao não aprender na escola, como reprovação, evasão, distorção idade-série e dificuldades persistentes de aprendizagem. Na perspectiva crítica de Maria Helena Souza Patto, não se trata apenas de uma falha do aluno, mas de um processo produzido também nas relações e práticas escolares atravessadas por desigualdades sociais.

Quem é responsável pelo fracasso escolar?

Não há um único responsável. As explicações que culpam exclusivamente o estudante ou a família são consideradas reducionistas. O fracasso escolar é multicausal: envolve fatores externos (socioeconômicos e culturais) e internos (práticas pedagógicas, avaliação e organização da escola).

Fracasso escolar, reprovação e evasão são a mesma coisa?

Não. A reprovação ocorre quando o estudante não atinge os critérios de aprovação; a evasão e o abandono se referem à interrupção da trajetória escolar; e as dificuldades de aprendizagem podem existir sem levar à reprovação. São fenômenos relacionados, mas distintos.

O que a escola pode fazer para enfrentar o fracasso escolar?

Investir em diagnóstico contínuo das aprendizagens, diversificar estratégias didáticas, oferecer recuperação de conteúdos, acompanhar os estudantes, dialogar com as famílias e adotar uma avaliação diagnóstica e formativa, em vez de apenas classificatória.