
A gramática costuma ser apresentada como um conjunto de regras prontas para decorar. Mas a língua não funciona assim e, por isso, seguiremos, aqui, um caminho diferenciado.
Cada tema será abordado a partir da lógica que organiza a língua, porque compreender os mecanismos do português é muito mais eficiente que memorizar classificações. E, em concursos públicos, essa diferença transforma dúvidas em segurança e conhecimento em desempenho — e acertos!
Hoje, nosso assunto é um daqueles que parecem fáceis até aparecer uma frase deste tipo:
“A divulgação dos resultados das últimas avaliações realizadas pelos candidatos surpreendeu a comissão.”
Agora, responda rapidamente: o verbo surpreendeu está no singular porque concorda com comissão, candidatos, avaliações, resultados ou divulgação?
Se você procurou a palavra mais próxima do verbo, caiu justamente em uma das armadilhas mais comuns das questões de concordância verbal, nosso assunto. O segredo não está na proximidade. Está na estrutura da oração.
Antes de concordar, é preciso encontrar o sujeito
Quando aprendemos concordância verbal, uma regra costuma aparecer logo no início: o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa. A regra está correta. O problema é que ela resolve muito pouco se não soubermos responder a uma pergunta anterior: qual é o sujeito?
Observe as duas orações abaixo:
- Os candidatos chegaram cedo.
- A divulgação dos resultados das últimas avaliações realizadas pelos candidatos surpreendeu a comissão.
Na oração 1, não há grande dificuldade. O sujeito os candidatos aparece imediatamente antes do verbo, e seu núcleo, candidatos, está no plural. Mas as frases encontradas em textos e provas nem sempre apresentam estruturas tão simples. É o caso da oração 2.
Perceba que entre o núcleo do sujeito e o verbo aparecem diversas palavras no plural: resultados, avaliações e candidatos. Nenhuma delas, porém, determina a concordância.
Por quê? Porque nenhuma delas é o núcleo do sujeito.
O segredo está no núcleo
Para compreender a concordância, precisamos primeiro observar como o sujeito está organizado. Vamos retomar a oração 2.
A divulgação dos resultados das últimas avaliações realizadas pelos candidatos surpreendeu a comissão.
- Podemos perguntar: o que surpreendeu a comissão?
- Resposta: A divulgação dos resultados das últimas avaliações realizadas pelos candidatos.
Encontramos, assim, o sujeito. Agora vem a segunda etapa: dentro desse grupo de palavras, qual é o termo central, aquele em torno do qual os demais se organizam?
É desta forma que se identifica o núcleo do sujeito. Identificar o sujeito é apenas parte do caminho. Em construções longas, é preciso também encontrar o núcleo desse sujeito. Isso porque essa é a palavra que efetivamente orientará a concordância verbal.

Cuidado com as palavras que ficam no caminho
Um dos motivos pelos quais questões de concordância verbal provocam tantos erros em provas é bastante simples: entre o núcleo do sujeito e o verbo podem aparecer vários outros termos. Veja a oração a seguir:
O aumento das reclamações dos consumidores preocupou a empresa.
Se olharmos apenas para as palavras próximas ao verbo, podemos ser atraídos pelo plural de consumidores. Mas experimente retirar, temporariamente, as informações acessórias: O aumento preocupou a empresa. A estrutura fica evidente.
O núcleo do sujeito é aumento, e não reclamações nem consumidores. Portanto, o verbo permanece no singular. É a pura aplicação da regra!
Agora compare:
As reclamações dos consumidores preocuparam a empresa.
Aqui, o núcleo mudou: As reclamações (…) preocuparam a empresa. Mudou o núcleo, mudou a concordância. É por isso que concordância não deve ser resolvida apenas “de ouvido”. É preciso compreender a estrutura sintática da oração.
Há outro detalhe importante.
- A decisão surpreendeu os candidatos.
- A decisão dos responsáveis pelo processo seletivo surpreendeu os candidatos.
- A decisão dos responsáveis pela organização das diferentes etapas do processo seletivo surpreendeu os candidatos.
Independentemente de o sujeito ser cada vez maior, seu núcleo continuou sendo o mesmo: decisão. Consequentemente, o verbo permaneceu no singular. Esse fenômeno ajuda a entender uma armadilha recorrente: quanto maior a distância entre o núcleo do sujeito e o verbo, maior a possibilidade de o falante ser influenciado por uma palavra intermediária.
Assim, construções longas exigem menos pressa e mais análise.
Há uma estratégia que ajuda bastante: diante de uma frase longa, não comece perguntando se o verbo deve ficar no singular ou no plural. Primeiro, identifique qual o verbo; em seguida, o que ou quem se relaciona a esse verbo como sujeito; só então identifique o núcleo e seu número e pessoa.
A presença de novos critérios nas avaliações realizadas pela instituição exige atenção dos candidatos.
- Qual é o verbo? → exige
- O que exige atenção? → A presença de novos critérios nas avaliações realizadas pela instituição
- Qual é o núcleo do sujeito? → presença
- Em que número está o núcleo? → singular
Logo: A presença (…) exige atenção.
Não importa que, entre presença e exige, apareçam critérios e avaliações, ambos no plural. A concordância não é determinada pela palavra mais próxima do verbo, mas pela relação sintática estabelecida entre verbo e sujeito.
Vamos ver como isso já caiu em prova?
Questão 1
Banca: CEBRASPE · Órgão: CNJ · Cargo: Analista Judiciário · Ano: 2024
No segundo período do primeiro parágrafo, a flexão dos termos “são” e “benefícios” no plural deve-se à concordância que estabelecem com “Inúmeros”, que funciona como sujeito da oração.
Gabarito: ERRADO
Essa questão é excelente para perceber que nem sempre o sujeito aparece onde esperamos encontrá-lo.
O período a que o item se refere é “Inúmeros são os benefícios do oferecimento de produtos e da prestação de serviços no ambiente digital.” À primeira vista, a construção “Inúmeros são os benefícios…” pode levar o candidato a interpretar Inúmeros como sujeito, especialmente porque o termo aparece antes do verbo. Mas vale reorganizar a oração em uma ordem mais habitual, direta, o que deixará a estrutura mais clara:
Os benefícios do oferecimento de produtos e da prestação de serviços no ambiente digital são inúmeros.
Dessa forma, fica fácil identificar o núcleo do sujeito: benefícios. Portanto, são está no plural porque concorda com o núcleo do sujeito, benefícios, e não com inúmeros, que é predicativo. E aqui aparece uma estratégia bastante útil para as provas: quando a ordem da oração dificultar a identificação do sujeito, experimente reorganizá-la mentalmente.
Nem só de regras vive um concurseiro
Existe uma técnica simples que pode ajudar muito em períodos extensos: reduzir temporariamente o sujeito ao seu núcleo. Isso não significa reescrever definitivamente a frase. É apenas um procedimento de análise.
A implementação de novas políticas de atendimento aos usuários dos serviços públicos exige planejamento.
- De forma reduzida: A implementação exige planejamento.
Os efeitos da implementação de novas políticas de atendimento aos usuários exigem planejamento.
- De forma reduzida: Os efeitos exigem planejamento.
Observe o que aconteceu: praticamente todas as palavras das duas construções são semelhantes, mas o núcleo do sujeito mudou de implementação para efeitos. Por isso, mudou também a forma verbal. É a estrutura — e não o tamanho da frase — que determina a concordância.
Resumo e dica final
A concordância verbal básica pode ser resumida por uma regra conhecida: o verbo concorda com o sujeito. Mas, em uma prova, essa informação sozinha não basta.
Quando o sujeito é extenso, é preciso reconhecer sua estrutura e, principalmente, identificar seu núcleo. Palavras no singular ou no plural posicionadas entre esse núcleo e o verbo podem funcionar como verdadeiras distrações.
E, se a estrutura estiver muito extensa, experimente retirar mentalmente os termos que acompanham o núcleo.
Compreender a língua é sempre mais eficiente que decorar regras. E, neste caso, há uma máxima especialmente útil: não procure a palavra mais próxima do verbo; procure a palavra que realmente comanda a concordância.
No fim das contas, vale a máxima deste capítulo: quem entende a lógica da língua precisa decorar muito menos.
Se liga na dica: Quando encontrar uma frase longa, faça este caminho: verbo → sujeito → núcleo do sujeito → concordância.
Nas próximas postagens, continuaremos desvendando a lógica da gramática — porque quem entende o funcionamento da língua acerta mais do que quem apenas memoriza classificações e regras.
Até a próxima!