
No dia 8 de setembro, é celebrado o Dia Internacional da Alfabetização, uma data criada pela Unesco para chamar a atenção para a importância da alfabetização como direito fundamental.
Mas alfabetizar não significa apenas ensinar letras, sílabas e palavras. O processo envolve a construção de conhecimentos sobre a linguagem escrita e a inserção da criança em práticas significativas de leitura e escrita. E é justamente nesse processo que o lúdico pode ocupar um lugar importante.
Afinal, será que aprender a ler e escrever precisa acontecer sempre por meio de atividades repetitivas e mecânicas?
A resposta é não. Mas também não significa que toda brincadeira, por si só, produza aprendizagem.
O que o lúdico tem a ver com alfabetização?
Brincadeiras e jogos fazem parte da experiência infantil e podem criar situações nas quais a criança interage, formula hipóteses, experimenta, erra, tenta novamente e constrói significados.
Na perspectiva de Vygotsky, o brincar possui papel importante no desenvolvimento porque cria possibilidades de ação e interação que ultrapassam aquilo que a criança realiza espontaneamente. A criança brinca com outras crianças, assume papéis, utiliza símbolos e atribui novos sentidos às situações vivenciadas.
No contexto da alfabetização, isso pode aparecer em jogos com letras, palavras, rimas, sons, histórias, parlendas e diferentes situações de uso da linguagem.
A BNCC também valoriza as situações lúdicas de aprendizagem nos anos iniciais, destacando a necessidade de articulá-las às experiências vivenciadas na Educação Infantil e, ao mesmo tempo, avançar para a progressiva sistematização dos conhecimentos.
Portanto, o lúdico não é o oposto do ensino. Ele pode ser uma forma de organizar experiências de aprendizagem.
Banca: Instituto de Apoio à Gestão e Educação – IGEDUC; Concurso: Prefeitura de Pão de Açúcar-AL; Cargo: Professor de educação infantil; Ano: 2026
No campo das teorias pedagógicas e psicológicas que fundamentam o uso de brincadeiras e jogos educativos na Educação Infantil, diferentes autores apontam que a ludicidade constitui um elemento estruturante da aprendizagem infantil, pois mobiliza dimensões cognitivas, sociais e simbólicas do desenvolvimento. Considerando as formulações teóricas de autores como Vygotsky e Kishimoto, bem como os princípios pedagógicos presentes na BNCC, assinale a alternativa CORRETA.
A) A ludicidade apresenta relevância pedagógica restrita à socialização inicial das crianças, pois os processos de construção conceitual dependem de instrução verbal organizada.
B) A função educativa do brincar reside sobretudo na possibilidade de relaxamento emocional, visto que a atividade lúdica tende a suspender processos cognitivos sistemáticos durante a infância.
C) A inserção de jogos na prática pedagógica ocorre principalmente para facilitar a transmissão direta de conteúdos formais previamente estruturados pelo currículo escolar.
D) O uso pedagógico das brincadeiras fundamenta-se prioritariamente na repetição de comportamentos observáveis, pois a aprendizagem infantil decorre essencialmente do condicionamento progressivo das respostas.
E) O jogo simbólico favorece processos de internalização cultural, pois a criança recria papéis sociais e significados coletivos, ampliando a capacidade de agir além do comportamento imediato.
Gabarito: E.
Comentário: A alternativa E compreende o jogo simbólico como espaço de construção de significados e apropriação cultural. A pegadinha está em reduzir o brincar à socialização, ao relaxamento ou à simples repetição de comportamentos.
Brincar não significa deixar de ensinar

Aqui está uma das principais pegadinhas das questões de concurso: lúdico não é sinônimo de atividade sem planejamento.
Uma brincadeira pode ser divertida e, ainda assim, não apresentar nenhuma intencionalidade pedagógica. Da mesma forma, um jogo pode ser cuidadosamente planejado para favorecer determinada aprendizagem.
É nesse ponto que entra o trabalho docente.
Para Kishimoto, o jogo educativo pode articular duas dimensões: a dimensão lúdica, relacionada ao prazer e à liberdade próprios do jogo, e a dimensão educativa, relacionada às possibilidades de aprendizagem.
Imagine, por exemplo, um bingo de letras. Se a proposta é simplesmente ocupar o tempo da turma, temos uma brincadeira. Mas, se o professor seleciona determinadas letras de acordo com as necessidades dos alunos, observa as estratégias utilizadas, intervém, questiona e retoma conhecimentos, a atividade passa a integrar uma ação pedagógica planejada.
O que faz a diferença, portanto, não é apenas o recurso utilizado, mas a maneira como ele é inserido no processo de ensino.
Como o lúdico pode favorecer a alfabetização?
Há muitas possibilidades.
Jogos de rimas podem contribuir para que as crianças percebam semelhanças sonoras. Brincadeiras com palavras podem ampliar o vocabulário. Letras móveis podem favorecer a reflexão sobre a escrita. Parlendas, cantigas e histórias podem ampliar experiências com a linguagem oral e escrita.
Também é possível propor situações em que as crianças precisem reconhecer palavras, comparar escritas, identificar sons iniciais e finais, organizar letras, produzir pequenos textos ou interpretar diferentes gêneros.
Perceba que o ponto central não é simplesmente “ensinar brincando”. É criar situações nas quais a criança pense sobre aquilo que está aprendendo.
Por isso, uma atividade lúdica bem planejada precisa responder a algumas perguntas: o que quero que a criança aprenda? Por que essa brincadeira é adequada para esse objetivo? Que conhecimentos ela já possui? Que intervenção será necessária? Como vou acompanhar o que está aprendendo?
É aí que a ludicidade deixa de ser apenas recreação e passa a fazer parte do trabalho pedagógico.
Alfabetização e letramento: atenção a essa diferença!
Outro conceito importante para quem estuda para concursos é não confundir alfabetização e letramento.
Alfabetização está relacionada à apropriação do sistema de escrita alfabética, envolvendo conhecimentos necessários para ler e escrever. Letramento, por sua vez, envolve a participação em práticas sociais de leitura e escrita. A criança não aprende apenas a decodificar palavras: ela precisa compreender para que se lê e escreve, em quais situações essas práticas são utilizadas e quais sentidos produzem.
Os dois processos são diferentes, mas não precisam ser tratados como separados. É possível trabalhar conhecimentos específicos do sistema de escrita em situações significativas de uso da linguagem.
Banca: FUNCERN; Concurso: Prefeitura de Guamaré – RN; Cargo: Professor de Educação Infantil – Pedagogo; Ano: 2024
Com relação à alfabetização e ao letramento na educação infantil, é correto afirmar:
- A familiaridade com os textos ocorre pelo acesso à leitura e escrita de modo formal e permite que a criança evolua da fase alfabética para a logográfica.
- O contato com o letramento é para inserir a criança em um contexto alfabetizador, instigando-a ao mundo da leitura, mesmo que não saiba ler e escrever ainda.
- Na educação infantil, ensina-se a ler e escrever formalmente, a partir dos 5 anos de idade, oferecendo oportunidades que ajudam as crianças a ingressar nos anos iniciais do ensino fundamental.
- Nessa etapa inicial da educação básica, deve-se explorar a leitura, a escrita e a escuta das crianças por meio de atividades lúdicas, para que elas constroem sua concepção de alfabetização.
Gabarito: B
Comentário: A alternativa B está correta porque o letramento, desde a Educação Infantil, busca inserir a criança em um ambiente rico em práticas de leitura e escrita, mesmo antes de ela dominar formalmente o sistema de escrita. O contato com histórias, livros, textos, imagens e diferentes situações de leitura desperta o interesse e aproxima a criança do universo da linguagem escrita. Veja também: https://youtu.be/cfo5Zty8MJU?si=DIIbJ36WZE0GkiXc
Última dica para a prova
Quando aparecer uma questão sobre ludicidade na alfabetização, procure palavras como interação, desenvolvimento, aprendizagem, mediação docente, intencionalidade pedagógica e construção de conhecimentos.
E guarde esta ideia: o lúdico não significa ausência de ensino; significa criar experiências em que aprender também pode envolver brincar, experimentar, interagir e produzir sentidos. Nas provas, a alternativa correta geralmente será aquela que consegue equilibrar essas duas dimensões: a criança brinca, mas o professor ensina, planeja, observa e intervém.