
Você sabe o que acontece no primeiro dia de trabalho de quem é aprovado na magistratura gaúcha? A resposta costuma surpreender: em vez de um gabinete no Palácio da Justiça, em Porto Alegre, o juiz de direito substituto do TJ RS normalmente inicia a trajetória em uma comarca do interior, assumindo audiências e decisões desde as primeiras semanas. Entender essa realidade antes de começar a estudar muda a forma de encarar a preparação, e ajuda a decidir se a carreira combina com o seu projeto de vida.
O que é o cargo de juiz de direito substituto do TJ RS
O cargo é a porta de entrada da carreira da magistratura estadual no Rio Grande do Sul. Todo magistrado que atua no Poder Judiciário gaúcho, inclusive os desembargadores que hoje julgam nas câmaras do tribunal, começou nessa posição inicial e avançou por promoção, alternando os critérios de antiguidade e merecimento previstos na Constituição Federal.
“Substituto” não significa auxiliar. O termo indica que o magistrado não é titular de uma vara específica no início da carreira: ele atua onde o tribunal designar, substituindo titulares em férias, licenças ou afastamentos, respondendo por comarcas vagas e reforçando unidades com acúmulo de trabalho. Na prática, isso significa proferir sentenças, conduzir audiências, decidir liminares e despachar processos com plena jurisdição.
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Como funciona a rotina de um juiz de direito substituto do TJ RS
A rotina combina três frentes que se alternam ao longo da semana.
A primeira é o trabalho de gabinete: leitura de autos, análise de pedidos urgentes, elaboração de decisões e sentenças. É a parte mais silenciosa e, também, a mais volumosa.
A segunda são as audiências. Conciliação, instrução, oitiva de testemunhas, audiências de custódia em plantões criminais, todas exigem condução firme e domínio processual em tempo real, sem tempo para consultar doutrina.
A terceira é a gestão da unidade judiciária. O magistrado responde pela produtividade da vara, orienta a equipe de servidores, organiza pautas e acompanha metas do Conselho Nacional de Justiça.
O volume ajuda a dimensionar o desafio. Segundo o relatório Justiça em Números 2025 do CNJ, cada magistrado brasileiro baixou, em média, 2.569 processos ao longo de 2024, o equivalente a cerca de 11 processos solucionados por dia útil. É um ritmo que exige método, não apenas conhecimento jurídico.
Onde o magistrado atua: entrâncias e comarcas no Rio Grande do Sul

O Judiciário gaúcho organiza suas comarcas em entrâncias, inicial, intermediária e final, classificadas conforme população, movimento processual e estrutura. Quem ingressa começa pela entrância inicial, em comarcas menores e distribuídas por todas as regiões do estado, da Fronteira Oeste à Serra.
Essa lógica tem duas consequências práticas. A primeira é a mobilidade: é preciso estar disposto a mudar de cidade, sobretudo nos primeiros anos. A segunda é a amplitude de matérias. Em comarcas menores, a mesma vara reúne demandas de família, cível, criminal, execução fiscal e infância, o que exige repertório largo em vez de especialização estreita.
Há ainda uma atribuição pouco comentada por quem está começando: magistrados estaduais acumulam jurisdição eleitoral, atuando em zonas eleitorais e recebendo gratificação específica por esse trabalho, conforme regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral.
Requisitos permanentes para ingressar na magistratura gaúcha
Alguns requisitos mudam de edital para edital. Outros são estruturais e se repetem em qualquer seleção da magistratura estadual, porque decorrem da Constituição e da Resolução nº 75/2009 do CNJ.
Bacharelado em Direito. Diploma de curso reconhecido pelo Ministério da Educação é condição inegociável.
Três anos de atividade jurídica. O prazo é contado a partir da colação de grau, e não do início da graduação. Entram nessa conta o exercício da advocacia, cargos e funções privativos de bacharel em Direito e atividades que exijam uso preponderante de conhecimento jurídico, incluindo magistério superior na área.
Habilitação no ENAM. O Exame Nacional da Magistratura passou a funcionar como filtro nacional de acesso à carreira: sem certificado válido, não há inscrição em concursos de magistratura, o que inclui o Rio Grande do Sul.
Idoneidade e aptidão. Investigação social, sindicância da vida pregressa e avaliação de sanidade física e mental integram o processo de forma eliminatória. Pendências financeiras, condutas incompatíveis com a função e antecedentes criminais podem barrar candidatos aprovados nas provas.
Remuneração, benefícios e progressão na carreira
A magistratura estadual é remunerada por subsídio, parcela única fixada em lei e reajustada periodicamente, sem os adicionais que caracterizam outras carreiras públicas. Sobre essa base incidem verbas próprias, como auxílio-alimentação, auxílio-moradia em determinadas hipóteses, auxílio-saúde e a gratificação pela atuação na Justiça Eleitoral. Os valores vigentes ficam disponíveis no Portal da Transparência do próprio tribunal.
A evolução funcional acontece por promoção entre entrâncias e, depois, por acesso ao segundo grau, quando o magistrado passa a integrar o corpo de desembargadores. Antiguidade e merecimento se alternam, e o merecimento considera produtividade, presteza no exercício da função e aproveitamento em cursos de aperfeiçoamento.
Vale saber também que a carreira impõe vedações constitucionais: é proibido exercer advocacia, ocupar outro cargo público. salvo uma função de magistério, e dedicar-se a atividade político-partidária. Quem vem da advocacia precisa considerar esse desligamento no planejamento.
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Vale a pena mirar a magistratura gaúcha?
Duas conclusões práticas sustentam essa decisão. A primeira é que o cargo entrega jurisdição real desde o início, com amplitude de matérias que poucas carreiras jurídicas oferecem. A segunda é que a contrapartida vem em mobilidade geográfica e em requisitos de acesso cada vez mais estruturados, com o ENAM na porta de entrada.
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Perguntas frequentes
Juiz substituto julga sozinho ou depende de um titular?
Julga sozinho. O magistrado substituto tem jurisdição plena e assina sentenças, decisões e liminares em nome próprio. A designação apenas define em qual unidade judiciária ele atuará em cada período.
É possível escolher a comarca no início da carreira?
Não livremente. A escolha ocorre por ordem de classificação entre as vagas disponíveis, e as designações seguem a necessidade do serviço. Disponibilidade para atuar no interior do estado é praticamente obrigatória nos primeiros anos.
Estágio na faculdade conta como atividade jurídica?
Não. A contagem dos três anos começa após a colação de grau. Períodos de estágio durante a graduação, ainda que em varas ou gabinetes, não são aproveitados para esse requisito.