Concurso Receita Federal: Guia Completo

Especialista OAB

Henrique Mendes

Integrante do time de Redação do Aprova. Possui experiência na criação de conteúdos informativos multimeios, com foco em concursos públicos, produzindo notícias e análises para conectar o aluno às oportunidades no setor público.

O concurso da Receita Federal do Brasil (RFB) é historicamente um dos mais disputados e valorizados do serviço público federal. Com salários iniciais que ultrapassam R$ 21 mil para o cargo de Auditor-Fiscal e R$ 12 mil para Analista-Tributário, além de benefícios robustos e plano de carreira sólido, o certame atrai centenas de milhares de candidatos a cada edição.

Este guia foi construído para ser o recurso mais completo e prático disponível sobre o concurso da Receita Federal. Aqui você encontrará a situação atual do concurso, o histórico detalhado das últimas edições, a estrutura das provas, as disciplinas cobradas com seus respectivos pesos, a análise aprofundada da banca FGV, estratégias de estudo validadas por aprovados, questões comentadas no estilo da banca e um cronograma realista para organizar seus estudos.

Não há especulação neste material. Cada informação é baseada em dados concretos dos editais publicados, nos relatórios do Ministério da Fazenda e nas tendências identificadas nas últimas edições da banca.

Situação Atual do Concurso Receita Federal (2025)

A Receita Federal atravessa um dos maiores déficits de pessoal de sua história. Os dados são contundentes e embasam a expectativa, bem fundamentada, de uma nova seleção nos próximos anos.

Déficit de pessoal e pressão por novas vagas

De acordo com os levantamentos do Sindifisco Nacional e do próprio Ministério da Fazenda, o quadro atual é crítico:

  • Auditores-Fiscais: déficit estimado em mais de 12.000 servidores em relação ao quadro ideal definido pela legislação. O órgão opera com menos de 50% do efetivo necessário para cumprir suas atribuições constitucionais de fiscalização, arrecadação e controle aduaneiro.
  • Analistas-Tributários: déficit próximo a 10.000 servidores. A defasagem afeta diretamente o atendimento ao contribuinte, o processamento de declarações e a gestão dos sistemas tributários.
  • Servidores em idade de aposentadoria: estima-se que entre 15% e 20% do quadro atual esteja em condições de se aposentar nos próximos 3 anos, o que agravará ainda mais o cenário.

Esse contexto é inédito e cria uma pressão institucional e política por autorização de novas vagas que raramente ocorreu em períodos anteriores. A última seleção expressiva (2022/2023) autorizou apenas 699 vagas — número muito inferior à demanda real do órgão.

Perspectivas para novos editais

Com base no quadro de pessoal e nas negociações em curso, as perspectivas para novas seleções apontam para o período de 2026 a 2027. Algumas sinalizações importantes:

  • Plano de Carreira e negociações salariais: o governo federal tem mantido diálogo com as categorias da Receita Federal sobre reestruturação de carreiras. Propostas de reajuste ou reestruturação costumam vir acompanhadas de autorização de vagas.
  • Lei de Responsabilidade Fiscal e teto de gastos: a autorização de concursos federais depende do enquadramento nas regras fiscais vigentes. O contexto de ajuste das contas públicas pode tanto retardar quanto, em alguns cenários de revisão do arcabouço fiscal, viabilizar contratações pontuais.
  • Precedente histórico: os intervalos entre concursos da RFB têm girado em torno de 3 a 4 anos. Com o último edital publicado em 2022, o ciclo aponta para 2025-2027.

Posição deste guia: não há edital publicado ou confirmado até a data de atualização deste material (fevereiro de 2025). Qualquer informação sobre 'edital iminente' ou 'vagas confirmadas' circulando em grupos deve ser tratada com ceticismo. Este guia será atualizado imediatamente após publicação oficial.

Por que estudar agora mesmo sem edital publicado

Candidatos que aproveitam o período de espera para construir uma base sólida chegam ao edital com meses de vantagem. As disciplinas do concurso da Receita Federal são extensas e técnicas — especialmente Direito Tributário, Legislação Tributária e Contabilidade — e exigem tempo de maturação que não pode ser comprimido em poucos meses.

Dados das últimas edições mostram que a maioria dos aprovados em primeiro lugar no ranking acumulou entre 12 e 24 meses de estudo antes da prova. Quem começa após a publicação do edital raramente tem tempo suficiente para o nível de profundidade exigido.

Cargos, Vagas e Remuneração

O concurso da Receita Federal abre vagas para dois cargos principais, que possuem atribuições, requisitos e remunerações distintos. Entender as diferenças é fundamental para direcionar os estudos corretamente.

CargoEscolaridadeSalário InicialTeto da CarreiraGratificação PGPE
Auditor-Fiscal da Receita Federal do BrasilNível Superior (qualquer área)R$ 21.029,00R$ 25.376,00Incluída
Analista-Tributário da Receita Federal do BrasilNível Superior (qualquer área)R$ 12.135,00R$ 15.250,00Incluída

Obs.: valores de referência com base na última tabela salarial publicada. Reajustes e reestruturações de carreira podem alterar esses números no próximo edital.

Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil (AFRFB)

O cargo de Auditor-Fiscal é considerado um dos mais poderosos e bem remunerados do serviço público federal. Suas atribuições incluem:

  • Fiscalização de tributos federais (IRPF, IRPJ, PIS, COFINS, IPI, ITR, entre outros)
  • Controle aduaneiro e combate ao contrabando e descaminho
  • Julgamento em primeira instância de processos administrativos tributários
  • Tributação de bens e mercadorias no comércio exterior
  • Representação da Fazenda Nacional em processos administrativos
  • Análise de regimes especiais e consultas tributárias

O Auditor-Fiscal tem poder de lavrar autos de infração, instaurar procedimentos fiscais e acessar informações bancárias e fiscais de contribuintes. É um cargo com prerrogativas legais significativas e forte identidade corporativa.

Analista-Tributário da Receita Federal do Brasil (ATRFB)

O cargo de Analista-Tributário desempenha funções de suporte técnico e operacional às atividades da RFB:

  • Análise e processamento de declarações fiscais (DIRPF, ECF, ECD, etc.)
  • Atendimento ao contribuinte e orientação tributária
  • Gestão dos sistemas de tecnologia da informação tributária
  • Trabalho aduaneiro de apoio ao Auditor-Fiscal
  • Atividades de inteligência fiscal e análise de dados

Embora com salário inicial menor que o Auditor-Fiscal, o cargo de Analista oferece remuneração e estabilidade muito acima da média do mercado privado, além de perspectiva de progressão na carreira.

Benefícios da carreira

Além do salário-base, servidores da RFB têm direito a:

  • Auxílio-alimentação: valor atualizado por decreto, em torno de R$ 1.000 a R$ 1.500 mensais
  • Auxílio-saúde: subsídio para planos de saúde via GEAP ou ressarcimento
  • Licença-prêmio e férias: 30 dias de férias com 1/3 adicional e possibilidade de licença por assiduidade
  • Aposentadoria pelo RPPS: regime próprio de previdência, com regras diferenciadas em relação ao INSS
  • Progressão por mérito e tempo: tabelas de evolução funcional com crescimento gradual na carreira

Histórico das Edições Anteriores

Conhecer o histórico do concurso é essencial para entender padrões de vagas, dificuldade, perfil dos aprovados e comportamento da banca ao longo do tempo.

Edição 2009 — ESAF

O concurso de 2009, organizado pela ESAF, foi o último sob a gestão dessa banca. Foram abertas vagas para Auditor-Fiscal e Analista-Tributário, com provas que ficaram marcadas pela altíssima taxa de corte: candidatos relataram que era necessário acertar acima de 80% das questões para alcançar a lista de aprovados no cargo de Auditor.

A ESAF tinha um estilo reconhecível: questões elaboradas com alta precisão conceitual, enunciados longos e alternativas muito próximas entre si. A prova de Português era notória por sua dificuldade e exigência de conhecimento profundo de gramática normativa.

Edição 2012 — ESAF

Em 2012, foram abertas 750 vagas para Analista-Tributário, uma das maiores oferta para esse cargo. A edição ficou marcada pelo volume de inscrições — mais de 130.000 candidatos — e pela competitividade extrema. A banca manteve o padrão ESAF, com questões de alta precisão e muita interpretação legislativa.

Edição 2014 — ESAF

Com 278 vagas para Auditor-Fiscal, o concurso de 2014 foi o mais disputado em termos de relação candidato/vaga até aquele momento. A seleção ficou marcada pela prova de Direito Tributário extremamente técnica, com questões envolvendo simulações de casos concretos de planejamento fiscal — algo inovador para a época.

Edição 2022/2023 — FGV (mais recente)

A última edição publicou edital em setembro de 2022, com provas realizadas em 2023. Esta foi a primeira vez que a FGV organizou o concurso da Receita Federal, marcando uma mudança significativa de perfil de prova.

ItemAuditor-FiscalAnalista-Tributário
Vagas230469
Inscritosaprox. 83.000aprox. 73.000
Relação candidato/vaga~361:1~156:1
Banca organizadoraFGVFGV
Tipo de prova objetiva140 questões (2 turnos)100 questões (1 turno)
Prova discursivaSim (2 questões)Sim (1 questão)

A transição da ESAF para a FGV foi um divisor de águas na preparação. Candidatos que estudaram com foco no estilo ESAF precisaram ajustar significativamente a abordagem para se adaptar à lógica da FGV, que privilegia aplicação prática em detrimento de memorização literal.

Estrutura das Provas

A estrutura da prova da Receita Federal é uma das mais complexas entre os concursos federais. Compreendê-la em detalhes é essencial para montar uma estratégia de estudo eficaz.

Prova Objetiva — Auditor-Fiscal

A prova objetiva do Auditor é dividida em dois turnos no mesmo dia:

  • 1º turno (manhã): 70 questões envolvendo disciplinas jurídicas e de tributação — Direito Constitucional, Direito Administrativo, Direito Tributário, Legislação Tributária, Direito Penal, Direito Processual Civil, Direito do Trabalho
  • 2º turno (tarde): 70 questões envolvendo disciplinas técnicas — Contabilidade Geral, Contabilidade Pública, Auditoria, Administração Financeira e Orçamentária, Economia, Estatística, Tecnologia da Informação e Fluência de Dados

Total: 140 questões objetivas, todas de múltipla escolha com 5 alternativas. A prova dura aproximadamente 5 horas por turno.

Prova Objetiva — Analista-Tributário

A prova do Analista é realizada em um único turno, com 100 questões distribuídas entre as disciplinas do cargo, com menor volume em disciplinas avançadas como Auditoria e sem Economia e Direito do Trabalho. A profundidade exigida, contudo, é elevada.

Prova Discursiva

A prova discursiva é um dos fatores mais determinantes para aprovação, especialmente no cargo de Auditor-Fiscal. Muitos candidatos que passam na objetiva são eliminados ou perdem posições significativas no ranking por desempenho fraco na discursiva.

  • Auditor-Fiscal: 2 questões discursivas, totalizando 22% da pontuação final. Uma questão geralmente envolve análise de caso tributário (com aplicação de legislação) e outra aborda temas de gestão pública ou política fiscal.
  • Analista-Tributário: 1 questão discursiva, pesando entre 15% e 20% da nota final, com foco em aplicação de norma tributária ou processual.

O candidato que não se prepara para a discursiva está literalmente abrindo mão de um quinto da prova. A diferença entre o 1º e o 50º colocado, em diversas edições, foi dada pelo desempenho nas questões dissertativas.

Critérios de aprovação e nota de corte

O processo seletivo da Receita Federal é altamente competitivo. Os critérios gerais seguem o padrão das últimas edições:

  • Nota mínima na prova objetiva (usualmente 50% em cada disciplina e 60-70% no total)
  • Nota mínima na prova discursiva (usualmente 20 pontos em 40 disponíveis)
  • Classificação final com base na soma ponderada de objetiva + discursiva

As notas de corte efetivas costumam ser muito superiores ao mínimo obrigatório. No concurso de 2022/2023, candidatos que acertaram menos de 75-78% da prova objetiva raramente alcançaram a lista de aprovados dentro do número de vagas, especialmente para o cargo de Auditor.

Disciplinas Cobradas, Pesos e Prioridades de Estudo

Este é o coração do guia. Conhecer não apenas quais disciplinas são cobradas, mas com que frequência, profundidade e de que forma a FGV as aborda, é a diferença entre um estudo eficiente e anos perdidos em conteúdo de baixo retorno.

Para o cargo de Auditor-Fiscal

DisciplinaPeso Estimado (%)Nível de DificuldadePrioridade
Direito Tributário15–18%Muito AltoMáxima
Legislação Tributária13–16%Muito AltoMáxima
Contabilidade Geral10–13%AltoMáxima
Contabilidade Pública6–8%AltoAlta
Auditoria Fiscal e Governamental6–8%AltoAlta
Fluência de Dados5–7%MédioAlta
Tecnologia da Informação5–6%MédioAlta
Administração Financeira e Orçamentária5–6%MédioAlta
Direito Constitucional4–6%MédioMédia
Direito Administrativo4–5%MédioMédia
Economia4–5%MédioMédia
Estatística3–5%MédioMédia
Direito Processual Civil3–4%MédioMédia
Direito Penal2–3%MédioBaixa
Direito do Trabalho2–3%MédioBaixa
Português4–6%AltoAlta

Para o cargo de Analista-Tributário

O Analista tem um conjunto similar de disciplinas, com algumas diferenças:

  • Não inclui Economia e Direito do Trabalho
  • Menor profundidade em Auditoria e Administração Financeira
  • Maior peso relativo em disciplinas jurídicas básicas
  • Contabilidade Geral tem peso proporcional ainda maior

Análise Aprofundada das Disciplinas Prioritárias

Direito Tributário — A Espinha Dorsal do Concurso

Nenhuma outra disciplina define tanto o sucesso ou fracasso de um candidato quanto Direito Tributário. Não existe aprovação no cargo de Auditor sem domínio sólido dessa matéria. A FGV cobra Tributário de forma aplicada, com enunciados que descrevem situações concretas e exigem interpretação sistemática da legislação.

Os principais blocos temáticos cobrados são:

  • Princípios Constitucionais Tributários: legalidade, anterioridade (anual e nonagesimal), irretroatividade, isonomia, capacidade contributiva, vedação ao confisco, imunidades recíprocas. A FGV adora criar situações limítrofes envolvendo conflitos entre princípios.
  • Obrigação Tributária: fato gerador, obrigação principal e acessória, sujeição ativa e passiva, solidariedade, responsabilidade tributária (por sucessão, de terceiros, por infrações, substituição tributária). A distinção entre responsabilidade e substituição é um ponto crítico e recorrente.
  • Crédito Tributário: lançamento (modalidades: de ofício, por declaração e por homologação), suspensão, extinção (pagamento, compensação, decadência, prescrição, remissão, dação em pagamento), exclusão (isenção e anistia). A questão da decadência e prescrição tributária é umas das mais cobradas.
  • Administração Tributária: fiscalização, dívida ativa, certidão negativa, sigilo fiscal, processo administrativo tributário federal (Decreto 70.235/72).
  • Tributos em espécie: IRPF, IRPJ (lucro real, presumido, arbitrado), PIS/COFINS, IPI, IOF, ITR, Contribuições Previdenciárias. A FGV frequentemente cria situações hipotéticas de tributação de empresas.

Dica estratégica: não adianta memorizar o CTN artigo por artigo. A FGV testa se você sabe APLICAR a norma. Resolva questões contextualizadas desde o início do estudo.

Legislação Tributária — O Complemento Essencial

Enquanto Direito Tributário foca nos princípios e normas gerais, Legislação Tributária desce ao nível das leis específicas que regulam cada tributo. São conteúdos distintos, mas profundamente interligados.

Os temas mais relevantes por incidência histórica:

  • Regulamento do Imposto de Renda (RIR — Decreto 9.580/2018): conceito de renda, rendimentos tributáveis e isentos, deduções permitidas no IRPF, regime de tributação exclusiva na fonte, ganho de capital, carnê-leão.
  • Simples Nacional: LC 123/2006 — critérios de opção, vedações, tabelas progressivas por atividade, exclusão do regime, tributação na fonte de serviços prestados por optantes.
  • IRPJ e CSLL: lucro real (apuração, ajustes no LALUR, adições e exclusões), lucro presumido (presunções por atividade), arbitramento, distribuição de lucros e dividendos, juros sobre capital próprio.
  • PIS e COFINS: regime cumulativo, não cumulativo, monofásico, substituição tributária. A reforma tributária em curso pode trazer questões de transição para o IBS/CBS nas próximas edições.
  • ITR: apuração, classificação de imóveis (rural x urbano), progressividade extrafiscal, Grau de Utilização (GU), Valor da Terra Nua (VTN).

Atenção à Reforma Tributária (EC 132/2023 e lei complementar do IBS/CBS): embora a implementação seja gradual (2026-2033), é provável que a próxima edição do concurso já inclua questões sobre o novo sistema tributário, especialmente sobre a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) que substituirá PIS e COFINS no âmbito federal.

Contabilidade Geral — Volume e Precisão

Contabilidade é a disciplina que mais elimina candidatos que não têm formação na área. O volume de conteúdo é imenso e a FGV cobra do nível básico ao avançado em uma única prova. Para candidatos sem formação contábil, é a disciplina que exige mais tempo de estudo.

  • Fundamentos e Escrituração Contábil: conceito de conta, débito e crédito, lançamentos, razão, balancete, livros contábeis obrigatórios. A FGV frequentemente apresenta transações e pede o lançamento correto.
  • Demonstrações Contábeis (NBC TG 26 / CPC 26): Balanço Patrimonial (classificação de contas no ativo circulante, não circulante, passivo e patrimônio líquido), Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), DLPA, DFC (método direto e indireto), DVA, Notas Explicativas.
  • Avaliação e Mensuração de Ativos: estoques (PEPS, Média Ponderada — sem UEPS no Brasil), imobilizado (custo, depreciação, impairment, reavaliação), intangíveis, investimentos (MEP — Método de Equivalência Patrimonial).
  • Consolidação de demonstrações: eliminação de transações intercompanhias, participação de não controladores, goodwill.
  • Análise das Demonstrações Financeiras: índices de liquidez (corrente, seca, imediata, geral), rentabilidade (ROE, ROA, margem líquida), estrutura de capital (endividamento, imobilização), atividade (prazo médio de estoques, recebimento, pagamento, PMPC, PMPF, ciclo operacional e financeiro).

Dica: a FGV frequentemente apresenta um balanço ou DRE com erros de classificação e pede que você os identifique. Treine muito nesse tipo de questão — ela exige visão holística das demonstrações, não apenas decorar fórmulas.

Fluência de Dados — O Diferencial das Últimas Edições

Fluência de Dados surgiu formalmente como disciplina no concurso de 2022/2023 e representa uma das maiores novidades em comparação com editais anteriores. É uma disciplina que combina Estatística aplicada, Análise de Dados e noções de Business Intelligence.

Candidatos que ignoram Fluência de Dados estão perdendo uma disciplina de peso crescente — e onde a concorrência ainda não está bem preparada, o que cria uma vantagem competitiva significativa.

  • Análise e visualização de dados: leitura e interpretação de gráficos, tabelas, dashboards. Tipos de visualização (barras, linhas, dispersão, heatmaps) e quando usar cada um.
  • Conceitos estatísticos aplicados: média, mediana, moda, desvio padrão, correlação, regressão linear simples. A FGV cobra interpretação dos conceitos, não apenas cálculo.
  • Big Data e Inteligência Artificial na gestão pública: conceitos de machine learning supervisionado e não supervisionado, aplicação na fiscalização tributária (análise de risco, cruzamento de dados).
  • Banco de dados e SQL: conceitos de banco relacional, consultas básicas (SELECT, FROM, WHERE, JOIN, GROUP BY). A FGV apresenta situações hipotéticas de cruzamento de bases de dados fiscais.
  • Privacidade e proteção de dados: LGPD e sua aplicação no contexto tributário — sigilo fiscal versus acesso a dados pelo Fisco.

Contabilidade Pública — A Visão do Estado

Contabilidade Pública é uma disciplina técnica específica para o setor governamental, com lógica própria diferente da contabilidade societária. Muitos candidatos cometem o erro de estudar apenas a parte teórica sem treinar a aplicação prática nas demonstrações públicas.

  • MCASP (Manual de Contabilidade Aplicada ao Setor Público): é o principal referencial normativo. A FGV cobra especialmente os planos de contas, conceitos de receita e despesa orçamentária, intraorçamentária e extraorçamentária.
  • Receita Pública: estágios (previsão, lançamento, arrecadação, recolhimento), classificação (corrente e capital), deduções.
  • Despesa Pública: estágios (fixação, empenho, liquidação, pagamento), classificação funcional e programática, restos a pagar (processados e não processados).
  • Demonstrações Contábeis Públicas: Balanço Orçamentário, Balanço Financeiro, Balanço Patrimonial (com variações patrimoniais), Demonstração das Variações Patrimoniais (DVP).
  • IPSAS e convergência internacional: normas internacionais de contabilidade para o setor público e o processo de convergência brasileiro.

Português — Menos Gramática, Mais Interpretação

A prova de Português da FGV tem características bem distintas do que candidatos esperam ao ouvir 'concurso federal'. A banca privilegia amplamente a interpretação de texto em detrimento de questões gramaticais puras.

  • Interpretação e análise textual (60-70% das questões): compreensão literal e inferencial, intenção do autor, coesão e coerência, argumentação implícita. A FGV usa textos autênticos de qualidade — artigos de revistas especializadas, textos jornalísticos sofisticados, textos normativos.
  • Semântica e léxico (15-20%): denotação, conotação, figuras de linguagem, sinonímia e antonímia no contexto. Questões que perguntam 'qual o sentido da palavra X no contexto' são recorrentes.
  • Gramática contextualizada (15-20%): concordância verbal e nominal em contextos complexos, regência, crase, pontuação. A FGV raramente cobra gramática isolada — ela a insere no contexto do texto.

Estratégia: faça pelo menos 3 leituras semanais de textos longos e complexos (revistas como Piauí, Valor Econômico, textos do IBGE e do Tesouro Nacional). Essa prática melhora tanto a interpretação quanto o vocabulário técnico que aparece nos textos da prova.

Análise Completa da Banca FGV

Conhecer a banca é tão importante quanto conhecer as disciplinas. A FGV tem um estilo de elaboração de questões muito característico, e candidatos que o identificam têm uma vantagem significativa na hora da prova.

O DNA da FGV: aplicação prática sobre memorização

A diferença fundamental entre a FGV e bancas como a ESAF ou o CESPE é a ênfase em situações aplicadas. Uma questão FGV típica apresenta um cenário concreto — uma empresa, uma operação comercial, um contribuinte — e pede que você aplique a norma àquele caso específico.

Isso significa que decorar o artigo de lei não é suficiente. Você precisa entender o PORQUÊ da norma, como ela funciona na prática e como se relaciona com outras normas do sistema tributário. O candidato que estuda exclusivamente por esquemas e resumos tem dificuldade com questões FGV.

Características das questões objetivas FGV

  • Enunciados longos e contextualizados: ao contrário do CESPE (que cobra diretamente a norma), a FGV descreve uma situação de 3 a 8 linhas antes de fazer a pergunta. Candidatos com dificuldade de leitura rápida perdem tempo precioso.
  • Alternativas tecnicamente corretas, mas não aplicáveis ao caso: a FGV elabora distratores (alternativas erradas) muito sofisticados. Uma alternativa pode apresentar uma regra tributária correta que simplesmente não se aplica ao contexto do enunciado. Isso induz quem só sabe a norma, mas não sabe aplicar.
  • Questões de múltiplas etapas: em Contabilidade e Tributário, é comum precisar fazer 2 ou 3 raciocínios sequenciais para chegar à resposta. A resposta de cada etapa alimenta a seguinte.
  • Atualização constante da legislação: a FGV cobra alterações legislativas recentes com frequência. Uma lei publicada há 3 meses antes do edital pode cair na prova. Isso exige acompanhamento constante do Diário Oficial.

A prova discursiva FGV — Como elaborar respostas de alto score

A prova discursiva da FGV tem critérios de correção bem definidos. Conhecê-los é fundamental:

  • Fundamentação legal: a FGV exige que respostas discursivas sejam embasadas em dispositivos legais específicos. Dizer 'conforme a legislação tributária' não pontua. Você precisa citar o artigo, a lei, o decreto.
  • Estrutura lógica: introdução que contextualiza o problema, desenvolvimento que aplica a norma ao caso e conclusão que responde objetivamente ao que foi perguntado. Questões discursivas sem conclusão clara perdem pontos mesmo com desenvolvimento correto.
  • Extensão adequada: a FGV geralmente indica o espaço máximo (em linhas). Respostas muito curtas sinalizam superficialidade; respostas que excedem o espaço podem ser desconsideradas na parte excedente.
  • Linguagem técnica precisa: use a terminologia legal correta. 'Tributo' não é o mesmo que 'imposto'. 'Extinção do crédito tributário' não é o mesmo que 'cancelamento'. A FGV está avaliando se você domina o vocabulário técnico.

Exercício prático recomendado: escreva pelo menos 2 questões discursivas por semana durante os últimos 3 meses de preparação. Peça a um colega que também estuda para revisar ou compare com gabaritos comentados por professores.

Comparativo FGV x ESAF x CESPE

CaracterísticaFGVESAFCESPE/Cebraspe
Foco principalAplicação práticaPrecisão conceitualMemorização direta
EnunciadosLongos, contextualizadosLongos, precisosCurtos, diretos
DistratoresSofisticados e plausíveisMuito precisosSimples (C/E)
Legislação recenteAlta frequênciaMédia frequênciaAlta frequência
DiscursivaFundamentação legal rigorosaTécnica aplicadaRedação gerencial
Melhor estudoQuestões em contextoNorma + exceçõesVolume de questões

Temas Mais Cobrados por Disciplina — Mapeamento das Últimas Edições

Este mapeamento foi construído com base nas provas de 2022/2023 (FGV) e nas edições anteriores (ESAF 2009, 2012, 2014), identificando os temas com maior recorrência histórica.

Direito Tributário — Temas recorrentes

  • Imunidades tributárias (recíproca, religiosa, partidos, entidades sem fins lucrativos, livros) — aparece em TODAS as edições
  • Hipóteses de suspensão do crédito tributário (moratória, parcelamento, tutela antecipada, liminar) x extinção x exclusão — distinção altíssima frequência
  • Responsabilidade tributária por sucessão e de terceiros — especialmente sócios de empresas encerradas
  • Decadência e prescrição tributária — prazo de 5 anos, termos iniciais diferentes para cada tipo de lançamento
  • Solidariedade tributária — quando ocorre, efeitos, benefício de ordem (que NÃO existe no tributário)
  • Interpretação e integração da legislação tributária (art. 107-112 CTN) — analogia, princípios gerais, equidade
  • Domicílio tributário — eleição, recusa pela autoridade, residência como critério subsidiário

Legislação Tributária — Temas recorrentes

  • IRPF — ganho de capital na alienação de bens, deduções permitidas (dependentes, saúde, educação), carnê-leão obrigatoriedade
  • IRPJ — lucro real x presumido: critério de obrigatoriedade, base de cálculo, adições e exclusões no LALUR
  • Simples Nacional — vedações à opção, efeitos da exclusão, cálculo do DAS por faixa de receita
  • Substituição tributária no ICMS (embora estadual, FGV cobra nas questões de Legislação como contexto de operações interestaduais)
  • PIS/COFINS não cumulativo — direito ao crédito, vedações, base de cálculo, alíquotas por regime
  • ITR — cálculo do imposto com base no VTN e no GU, obrigações acessórias do produtor rural
  • CIDE-Combustíveis — hipótese de incidência, contribuintes, destinação constitucional da receita

Contabilidade Geral — Temas recorrentes

  • Registro de operações de compra e venda com ICMS, PIS, COFINS (crédito e débito fiscal)
  • Depreciação — método linear, soma dos dígitos, unidades produzidas; valor residual; cálculo proporcional
  • Provisões x Passivos contingentes (CPC 25) — quando reconhecer, mensurar, divulgar
  • Equivalência patrimonial — cálculo do ajuste, goodwill, mais-valia de ativos
  • Demonstração dos Fluxos de Caixa — método indireto: ajustes ao lucro líquido, variações de capital de giro
  • Análise de índices — questões que apresentam balanço e pedem cálculo e interpretação de múltiplos índices
  • Operações com leasing financeiro x operacional (IFRS 16 / CPC 06 R2)

Fluência de Dados — Temas recorrentes

  • Interpretação de dashboards e visualizações de dados — leitura correta de gráficos com múltiplas variáveis
  • Conceitos de mineração de dados e machine learning na fiscalização tributária
  • Análise de regressão simples — coeficiente de correlação, coeficiente de determinação (R²), interpretação prática
  • Proteção de dados fiscais e LGPD — sigilo bancário x compartilhamento com Receita Federal
  • Conceitos de ETL (Extract, Transform, Load), data warehouse, OLAP, BI

Estratégia de Estudo — Do Zero à Aprovação

A estratégia apresentada aqui não é genérica. É construída especificamente para o concurso da Receita Federal, com base nas características da FGV e na experiência de candidatos aprovados nas últimas edições.

Diagnóstico inicial — Conheça seu ponto de partida

Antes de montar qualquer cronograma, faça um diagnóstico honesto das suas condições:

  • Formação acadêmica: graduados em Direito têm vantagem em Tributário e Administrativo, mas costumam ter dificuldade em Contabilidade e Fluência de Dados. Contadores têm o caminho inverso. Identifique suas fraquezas com clareza.
  • Carga horária disponível: estude quantas horas você CONSEGUE manter por dia de forma sustentável. 4 horas reais por dia são mais produtivas do que 8 horas com baixa qualidade de concentração.
  • Resgate de conhecimentos: faça uma lista das disciplinas e marque seu nível atual em cada uma (nulo, básico, intermediário, avançado). Isso define onde concentrar energia nas primeiras semanas.

Fase 1 — Base e Estrutura (semanas 1 a 8)

Objetivo: construir compreensão sólida dos fundamentos de cada disciplina antes de avançar para conteúdos avançados.

  • Direito Tributário: estude o CTN completo (arts. 1 ao 218) com foco no ENTENDIMENTO, não na memorização. Use uma obra doutrinária de referência (Ricardo Alexandre é excelente como base) e sempre relacione cada dispositivo a um exemplo concreto.
  • Contabilidade Geral: se você não tem formação contábil, essa é a fase crítica. Invista tempo no estudo de lançamentos básicos, plano de contas e demonstrações financeiras antes de qualquer outro conteúdo avançado. Errar nessa fase atrasará toda a preparação.
  • Legislação Tributária: estude em paralelo com Direito Tributário. Para cada tema do CTN (ex.: extinção do crédito por compensação), estude a legislação específica (ex.: Lei 9.430/96 — regras de compensação na Receita Federal).
  • Disciplinas jurídicas (Constitucional, Administrativo): abordagem mais leve nessa fase. Construa apenas a base para entender o sistema tributário dentro do direito público.

Fase 2 — Aprofundamento e Técnica (semanas 9 a 20)

Objetivo: dominar os temas mais avançados e começar a integrar o conhecimento das disciplinas.

  • Tributário avançado: tributação de operações específicas (reorganizações societárias, planejamento fiscal lícito x ilícito, preços de transferência, tributação internacional). São temas que aparecem nas provas discursivas.
  • Contabilidade Pública: comece o estudo do MCASP com foco em Receita e Despesa Orçamentária. O maior erro dos candidatos é subestimar essa disciplina e deixá-la para o final.
  • Fluência de Dados: inicie os estudos de Estatística e análise de dados. Explore ferramentas básicas de visualização (mesmo que teoricamente). Procure questões das últimas edições da FGV nessa área.
  • Auditoria: estude o manual de auditoria governamental (NAG/NBC TAs) e as normas de auditoria fiscal interna. É uma disciplina onde candidatos com formação em Contabilidade têm clara vantagem.

Fase 3 — Integração e Simulados (semanas 21 a 30)

Objetivo: integrar todo o conhecimento, identificar lacunas e simular as condições reais de prova.

  • Faça ao menos 2 simulados completos por mês (com todas as 140 questões em tempo real)
  • Analise cada questão errada com profundidade: o erro foi de conteúdo, de interpretação ou de estratégia?
  • Identifique padrões de erro: se você erra consistentemente questões de Equivalência Patrimonial, volte ao conteúdo específico antes do próximo simulado
  • Revise questões de anos anteriores da FGV — não apenas Receita Federal, mas TODOS os concursos da banca (CGU, TCE, SEFAZ). A FGV reusa lógica e formatos de questão
  • Pratique a discursiva: 2 questões por semana, com fundamento legal completo

Fase 4 — Revisão Final e Ajuste Fino (semanas 31 a 36)

Objetivo: consolidar o que sabe, zerar pontos cegos identificados nos simulados e chegar à prova em pico de rendimento.

  • Revisão intensiva dos temas com maior número de questões na prova (Tributário + Contabilidade + Legislação)
  • Leitura de legislação recente publicada após a abertura do edital
  • Simulados cronometrados para ajuste de pace — quantas questões por hora você precisa manter
  • Parada de novos conteúdos 10 dias antes da prova — apenas revisão do que já está consolidado

Questões Comentadas no Estilo FGV

Estas questões foram elaboradas no padrão e estilo FGV para ilustrar como a banca aborda os temas mais cobrados. Não são questões de provas anteriores, mas construídas para fins pedagógicos com o mesmo nível de complexidade e formato.

Questão 1 — Direito Tributário (Responsabilidade Tributária)

João era sócio administrador da empresa Alfa Ltda., com participação de 35% no capital social. A empresa encerrou suas atividades de fato em março de 2020, sem baixa formal na Junta Comercial e sem quitar débitos de IRPJ referentes aos anos de 2018 e 2019. Em 2023, a Receita Federal iniciou execução fiscal contra a empresa e, diante da dissolução irregular, redirecionou a cobrança para João pessoalmente. Com base no Código Tributário Nacional e na jurisprudência consolidada do STJ, assinale a alternativa correta:

  • a) João não pode ser responsabilizado porque a responsabilidade tributária se restringe à pessoa jurídica.
  • b) João pode ser responsabilizado porque a dissolução irregular configura hipótese de responsabilidade de terceiros prevista no art. 135 do CTN.
  • c) João pode ser responsabilizado apenas se sua participação societária fosse superior a 50%.
  • d) João não pode ser responsabilizado porque o redirecionamento exige prova de dolo específico no encerramento das atividades.
  • e) João pode ser responsabilizado solidariamente com os demais sócios, independentemente de qualquer participação na gestão.

Gabarito: B | Comentário: O art. 135 do CTN prevê responsabilidade pessoal dos administradores por atos praticados com excesso de poderes, infração de lei ou contrato. O STJ consolidou (Súmulas 430 e 435) que a simples dissolução irregular da empresa configura infração à lei e autoriza o redirecionamento da execução fiscal para os sócios administradores, independentemente do percentual de participação. O requisito é a condição de administrador na época do fato gerador, não o percentual societário.

Questão 2 — Contabilidade Geral (Método de Equivalência Patrimonial)

A empresa Beta S.A. adquiriu, em 02/01/2024, 40% das ações ordinárias da empresa Gama Ltda. por R$ 800.000. Nessa data, o Patrimônio Líquido da Gama era de R$ 1.800.000. Durante o ano de 2024, a Gama apurou lucro líquido de R$ 200.000 e distribuiu dividendos de R$ 80.000. Qual o valor do investimento de Beta em Gama no Balanço Patrimonial de 31/12/2024, avaliado pelo Método de Equivalência Patrimonial?

  • a) R$ 800.000
  • b) R$ 848.000
  • c) R$ 768.000
  • d) R$ 720.000
  • e) R$ 888.000

Gabarito: B | Resolução: Custo de aquisição: R$ 800.000. % no PL inicial: 40% x R$ 1.800.000 = R$ 720.000. Goodwill implícito: R$ 800.000 - R$ 720.000 = R$ 80.000 (não amortizável pelo CPC 15). Ajuste pelo MEP no lucro: 40% x R$ 200.000 = +R$ 80.000. Ajuste pelos dividendos: 40% x R$ 80.000 = -R$ 32.000. Saldo final: R$ 800.000 + R$ 80.000 - R$ 32.000 = R$ 848.000.

Questão 3 — Fluência de Dados (Análise de Dados Fiscais)

A Receita Federal implementou um modelo de análise de risco baseado em aprendizado de máquina para priorizar fiscalizações de pessoas jurídicas. O modelo utiliza variáveis como faturamento declarado, folha de pagamento, operações de crédito e histórico de inconsistências declaratórias para calcular um score de risco. Um analista observou que, após o treinamento do modelo, contribuintes com certas combinações de variáveis eram sistematicamente classificados como alto risco, mesmo quando suas declarações eram consistentes. Qual fenômeno estatístico melhor explica esse comportamento do modelo?

  • a) Subajustamento (underfitting), causado por modelo muito simples que não captura padrões relevantes.
  • b) Sobreajustamento (overfitting), causado por modelo que aprendeu padrões específicos dos dados de treinamento sem capacidade de generalização.
  • c) Multicolinearidade, causada pela correlação entre as variáveis independentes do modelo.
  • d) Heterocedasticidade, causada pela variância não constante dos erros do modelo.
  • e) Viés de seleção, causado pelo uso de amostra não representativa na etapa de validação.

Gabarito: B | Comentário: O overfitting ocorre quando um modelo de machine learning aprende com excessivo detalhe os dados de treinamento, incluindo ruídos e especificidades, e perde capacidade de generalizar para novos dados. O comportamento descrito — classificação consistente como alto risco mesmo sem inconsistências — sugere que o modelo aprendeu padrões espúrios do conjunto de treinamento. A solução envolve técnicas de regularização, validação cruzada e ampliação do conjunto de treinamento.

Como passar na prova discursiva

A prova discursiva é o maior diferencial entre candidatos com notas similares na prova objetiva. Muitos candidatos chegam bem preparados no conteúdo, mas falham na forma de apresentação das respostas.

Estrutura ideal de uma resposta discursiva

Uma resposta discursiva de alto score na FGV segue este modelo:

  • Introdução (2-3 linhas): contextualiza o problema apresentado no enunciado e enuncia a questão central que será respondida. Evite introduções genéricas como 'No Brasil, o sistema tributário...' — vá direto ao ponto do caso.
  • Fundamentação legal (núcleo da resposta): cite os dispositivos aplicáveis com precisão (art. X da Lei Y, Decreto Z). Explique por que cada norma se aplica ao caso. Mostre o raciocínio de subsunção da norma ao fato.
  • Desenvolvimento analítico: aplique a norma ao caso concreto passo a passo. Se houver cálculo (ex.: apuração de tributo), apresente-o de forma organizada. Se houver conflito entre normas, demonstre como resolvê-lo (hierarquia, especialidade, cronologia).
  • Conclusão objetiva (2-3 linhas): responda diretamente ao que foi perguntado. Não deixe a conclusão subentendida — escreva explicitamente: 'Portanto, no caso apresentado, o contribuinte [tem/não tem] direito a [X], com fundamento nos arts. Y e Z.'

Temas prováveis para a discursiva

Com base no histórico de discursivas das últimas edições da FGV em concursos da área fiscal:

  • Planejamento Tributário Abusivo: distinção entre elisão fiscal lícita (planejamento) e evasão fiscal (sonegação), aplicação do art. 116, parágrafo único do CTN, medidas antielisivas, responsabilidade do planejamento e do contribuinte.
  • Responsabilidade Tributária em Reorganizações Societárias: fusão, incorporação, cisão — quem assume as obrigações tributárias, em que condições, limitações legais.
  • Processo Administrativo Tributário Federal: auto de infração, impugnação, julgamento no DRJ, recurso ao CARF, efeitos da decisão administrativa na prescrição judicial.
  • Tributação na Reforma Tributária (EC 132/2023): especialmente a transição PIS/COFINS → CBS, regras de aproveitamento de crédito no período transitório.
  • Auditoria de demonstrações contábeis societárias: papéis de trabalho, evidências de auditoria, opinião modificada x não modificada, limitações de escopo.

Exercício prático: questão discursiva resolvida

Enunciado: A empresa Delta Comércio Ltda., optante pelo Lucro Real, realizou operação de leasing financeiro de equipamentos industriais em janeiro de 2024, com prazo de 60 meses e valor presente das prestações de R$ 500.000. O arrendador é uma empresa do mesmo grupo econômico. O auditor-fiscal identificou que a empresa não reconheceu o ativo de direito de uso e o passivo correspondente em suas demonstrações, tratando as prestações como despesa operacional. Elabore análise técnica da situação, identificando as irregularidades, os normativos aplicáveis e as providências cabíveis.

Resposta modelo:

A operação descrita configura arrendamento mercantil financeiro, nos termos do CPC 06 (R2) / IFRS 16, que exige o reconhecimento pelo arrendatário de um ativo de direito de uso e um passivo de arrendamento no momento do início do contrato, pelo valor presente dos pagamentos futuros. Trata-se de norma de observância obrigatória para empresas tributadas pelo Lucro Real (IN RFB 1.515/2014, arts. 45-50).

A irregularidade contábil identificada consiste no tratamento indevido de leasing financeiro como operacional, com reconhecimento das prestações diretamente como despesa operacional, em vez do reconhecimento do ativo e passivo e da despesa de depreciação do ativo de direito de uso e encargo financeiro do passivo, conforme exige o CPC 06 (R2).

Sob o aspecto fiscal, a dedutibilidade das parcelas de arrendamento financeiro para fins do IRPJ e CSLL segue regras específicas. Para operações entre partes relacionadas, aplicam-se as regras de preços de transferência (Lei 14.596/2023, que atualizou a legislação brasileira ao padrão OCDE/G20), exigindo que a taxa de juros implícita no contrato reflita condições de mercado entre partes independentes.

As providências cabíveis incluem: (i) auto de infração por omissão de receitas/dedução indevida de despesas na apuração do IRPJ e CSLL; (ii) exigência de ajuste nas demonstrações contábeis com elaboração de Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido retificadora; (iii) análise das condições do contrato à luz das regras de preços de transferência para verificar eventual excesso de encargos deduzidos.

Cronograma de Estudos — 12 Meses

Este cronograma assume dedicação de 5 a 6 horas diárias e é calibrado para quem parte de conhecimento básico a intermediário. Ajuste conforme sua situação atual.

MêsDisciplinas FocoMeta de QuestõesAtividade Especial
Mês 1Tributário (CTN fundamentos), Cont. Geral (escrituração)100 questõesDiagnóstico inicial — simulado zerado
Mês 2Tributário (crédito tributário, resp.), Cont. Geral (DRE, BP)150 questões1ª leitura completa do CTN
Mês 3Legislação Tributária (IRPJ/IRPF), Cont. Pública (base)200 questõesSimulado parcial (Tributário + Contabilidade)
Mês 4Legislação Tributária (Simples, PIS/COFINS), Auditoria200 questões2 questões discursivas por semana
Mês 5Fluência de Dados, TI, Estatística180 questõesProjeto prático de análise de dados
Mês 6Constitucional, Administrativo, Processo Civil200 questõesSimulado completo (1º + 2º turno)
Mês 7Cont. Pública (avançado), AFO, Economia200 questõesRevisão Tributário fundamentos
Mês 8Revisão geral + questões inéditas FGV300 questões2 simulados completos
Mês 9Aprofundamento discursiva — casos complexos250 questões4 discursivas/semana com revisão
Mês 10Legislação atualizada (leis recentes)300 questõesLeitura do Diário Oficial semanal
Mês 11Simulados intensivos + pontos fracos400 questões3 simulados completos
Mês 12Revisão final — apenas conteúdo consolidado200 questõesParar novos temas 10 dias antes

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Quando sai o próximo edital da Receita Federal?

Não há data confirmada. Com base no histórico de intervalos entre concursos (3-4 anos) e no expressivo déficit de pessoal, o período mais provável para publicação de novo edital é 2026-2027. Este guia será atualizado imediatamente com qualquer confirmação oficial.

2. Qual formação é necessária para o concurso da Receita Federal?

Qualquer diploma de nível superior é aceito para ambos os cargos — Auditor-Fiscal e Analista-Tributário. Não há exigência de graduação específica. Profissionais formados em Direito, Administração, Ciências Contábeis, Economia e Sistemas de Informação estão entre os mais bem posicionados, mas aprovados de todas as áreas são registrados em cada edição.

3. Qual a diferença real entre estudar para Auditor e para Analista?

As provas são similares em estrutura, mas a do Auditor exige maior profundidade em praticamente todas as disciplinas — especialmente Tributário e Contabilidade — além de incluir disciplinas adicionais (Economia, Direito do Trabalho) e cobrar 2 questões discursivas em vez de 1. O tempo de preparação necessário é, em média, 30 a 40% maior para o Auditor. Candidatos que já estudam para o Analista podem migrar para o Auditor com 3 a 6 meses adicionais de aprofundamento nas disciplinas extras.

4. Vale a pena estudar para a Receita Federal sem edital publicado?

Sim, e é altamente recomendável. As disciplinas são extensas e técnicas — especialmente Tributário e Contabilidade — e exigem maturação de conhecimento que não se constrói em poucos meses. Candidatos que chegam ao edital já preparados chegam com vantagem real sobre quem começou do zero após a publicação. Dados das últimas edições mostram que a maioria dos primeiros colocados acumulou mais de 12 meses de estudo antes da prova.

5. Posso trabalhar e estudar para a Receita Federal ao mesmo tempo?

É possível, mas exige gestão rigorosa do tempo. A preparação recomendada é de 4 a 6 horas diárias. Candidatos que trabalham em tempo integral geralmente precisam de 18 a 24 meses de preparação, contra 12 a 16 meses para quem estuda em tempo integral. O foco deve ser na qualidade do estudo — 4 horas concentradas superam 8 horas dispersas.

6. Qual a nota de corte esperada?

Notas de corte históricas são indicativas, não garantidas. No concurso de 2022/2023, candidatos que aproveitaram abaixo de 73-76% da prova objetiva raramente atingiram a lista de aprovados para o cargo de Auditor dentro do número de vagas. Para Analista, o corte efetivo ficou em torno de 68-72%. Esses percentuais tendem a subir com maior número de vagas (mais candidatos passam na objetiva mas ainda precisam da discursiva).

7. A Reforma Tributária vai mudar muito o conteúdo da prova?

A Reforma Tributária (EC 132/2023) é um conteúdo que as próximas edições certamente cobrarão, especialmente as regras sobre CBS (que substitui PIS e COFINS federais), IBS e o período de transição. O CTN e as bases do Direito Tributário não mudam com a reforma — o que muda são as leis específicas de tributação do consumo. Candidatos que dominam a legislação atual terão facilidade de absorver as mudanças quando os textos complementares forem consolidados.

8. Como me manter atualizado sobre o edital?

A fonte oficial é o Diário Oficial da União (www.in.gov.br) e o site da própria Receita Federal (www.gov.br/receitafederal). Este guia é atualizado regularmente com informações verificadas. Desconfie de grupos de WhatsApp e Telegram que anunciam editais antes de publicação oficial — boatos são comuns e podem causar preparação precipitada ou inadequada.

9. Qual a maior dificuldade relatada por aprovados?

Nas últimas edições, as dificuldades mais relatadas por aprovados foram: (1) manter consistência nos estudos por mais de 12 meses, (2) dominar Contabilidade para candidatos sem formação na área, (3) adaptar-se ao estilo FGV de questões contextualizadas após estudar muito por resolução de questões de outras bancas, e (4) a prova discursiva — especialmente a citação precisa de artigos de lei sob pressão de tempo.

10. Existe algum material ou curso indispensável?

Nenhum curso é indispensável, mas bons professores nas disciplinas técnicas fazem diferença real. Para Direito Tributário, a obra de Ricardo Alexandre é a referência mais usada entre aprovados. Para Contabilidade, os CPCs e as Normas Brasileiras de Contabilidade são leitura obrigatória. O mais importante é a resolução sistemática de questões — não existe substituto para o volume de questões resolvidas e analisadas.

Comece Agora!

O concurso da Receita Federal é difícil. Essa afirmação não é para desanimar — é para preparar você para o que está à frente. Candidatos que entram na preparação com expectativas irrealistas (aprovação em 3 meses, estudo de 2 horas por dia) são os primeiros a desistir ou a decepcionarem-se com os resultados.

Candidatos que chegam ao edital já preparados, com domínio real de Tributário, Contabilidade e Legislação, entendendo o estilo da FGV, sabendo escrever discursivas sólidas — esses candidatos aprovam. E essa preparação começa hoje, independentemente de quando o edital sair.

Use este guia como referência ao longo da sua preparação. Ele será atualizado com novas informações assim que disponíveis. Bons estudos!