Texto I
[...]
Outro elemento por trás da tendência [de buscar terapia] é o entristecimento das pessoas, diz o psicanalista Lucas Liedke, que discute saúde mental na internet. Sua visão é amparada pelo Relatório Mundial da Felicidade, da ONU. Em 2020, o Brasil caiu 12 posições no ranking. Em 2021, o país recuperou duas posições, mas continua distante do melhor patamar, registrado em 2013, quando ocupava a 24ª posição.
"Além de retratar a sociedade, essas obras ajudam a desconstruir a ideia da terapia como algo elitista, que em parte é verdade, mas em parte não só é mentira como é até preconceito, porque muita gente pensa que terapia é só para quem está sofrendo muito ou para quem tem muito dinheiro e tempo", diz Liedke.
Crítico a quem se preocupa com a saúde mental sem refletir sobre a precarização da vida, o psicanalista salienta que "a terapia não vai resolver os problemas do mundo, como a pobreza, o racismo, o machismo, mas pode ajudar quem sofre disso a enfrentar o problema da melhor maneira". "Se cuidamos do nosso corpo, por que não deveríamos cuidar da cabeça? A gente merece fazer terapia."
Trecho I :Ai, Meu Deus, que saudade da Amélia/ Aquilo sim é que era mulher/ Às vezes passava fome ao meu lado/ E achava bonito não ter o que comer/ Quando me via contrariado/ Dizia: "Meu filho, o que se há de fazer!"/ Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era mulher de verdade. (Ataulfo Alves) (Fonte: Letras.mus)
Trecho II : Me deram um palco e eu vou cantar/ Canto pela tia queé silenciada/ Dizem que só a pia é seu lugar / Pela mina que é de quebrada/ Que é violentada e não pode estudar (...) Dona de casa limpa, lava e passa/ Mas fora do lar não pode trabalhar/ Não precisa ser Amélia pra ser de verdade/ Cê tem a liberdade pra ser quem você quiser/. (Bia Ferreira)
Leia com atenção o trecho da canção “Ai, que saudades de Amélia” (trecho I) e, de acordo com a Gramática Normativa da Língua Portuguesa, assinale a alternativa correta.
Santinho
(Luiz Fernando Veríssimo)
Me lembro com clareza de todas as minhas professoras,
mas me lembro de uma em particular. Ela se chamava Dona
Ilka. Curioso: por que escrevi “Dona Ilka” e não Ilka? Talvez
por medo de que ela se materializasse aqui ao meu lado e
exigisse o “Dona”, onde se viu tratar professora pelo primeiro
nome, menino? No meu tempo ainda não se usava o “tia”.
Elas podiam ser boas e até maternais, mas decididamente
não eram nossas tias. A Dona Ilka não era maternal. Era uma
mulher pequena com um perfl de passarinho. Um pequeno
passarinho loiro. E uma fera.
Eu era aluno “bem-comportado”. Era um vagabundo, não
aprendia nada, vivia distraído. Mas comportamento, 10. Por
isto até hoje faço verdadeiras faxinas na memória, procurando
embaixo de tudo e em todos os nichos a razão de ter sido, um
dia, castigado pela Dona Ilka. Alguma eu devo ter feito, mas
não consigo lembrar o quê. O fato é que fui posto de castigo.
Que consistia em fcar de pé num canto da sala de aula, com
a cara virada para a parede. (Isto tudo, já dá pra ver, foi mais
ou menos lá pela Idade Média.) Mas o que eu nunca esqueci
foi a Dona Ilka ter me chamado de “santinho do pau oco”.
Ser bem-comportado em aula não era uma decisão
minha nem era nada de que me orgulhasse. Era só o meu
temperamento. Mas a frase terrível da Dona Ilka sugeria que
a minha boa conduta era uma simulação. Eu era um falso. Um
santo falsifcado! Depois disso, pelo resto da vida, não foram
poucas as vezes em que um passarinho imaginário com perfl
de professora pousou no meu ombro e me chamou de fngido.
Os santinhos do pau oco passam a vida se questionando.
Já outra professora quase destruiu para sempre qualquer
pretensão minha à originalidade literária. Era para fazer uma
redação em aula sobre a ociosidade, e eu não tinha a menor
ideia do que era ociosidade. Se a palavra fora mencionada
em aula tinha certamente sido num dos meus períodos de
devaneio, em que o corpo fcava ali, mas a mente ia passear.
E então, me achando formidável, fz uma redação inteira sobre
um aluno que precisa fazer uma redação sobre a ociosidade
sem saber o que é isso, sua agonia e fnalmente sua decisão
de fazer uma redação sobre um aluno que precisa fazer uma
redação sobre a ociosidade, etc. a professora chamou a
atenção de toda a classe para a minha redação. Eu era um
exemplo de quem acha que com esperteza pode-se deixar
de estudar e por isto estava ganhando um zero exemplar. Só
faltou me chamar de original do pau oco.
Enfm, sobrevivi. No ginásio, todos os professores eram
homens, mas não me lembro de nenhuma marca que algum
deles tenha deixado. As relações com as nossas pseudomães,
no primário, eram mais profundas. As duas histórias que eu
contei não têm nenhuma importância. Mas olha as cicatrizes.
O sufixo “-inho”, presente no título, cumpre papel expressivo denotando um sentido:

Assinale a alternativa que preencha correta e respectivamente as lacunas, em relação ao uso ou não da crase:
___ noite, fomos _____ confraternização. Voltamos ____ pé.

O acento grave presente em “trazer alguma paz àquela série de solavancos” justifica-se em função da ocorrência de crase entre o “a” que inicia o pronome demonstrativo e a preposição “a”:

Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora), também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.
O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.
O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:
- O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.
Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:
- Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.
- Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não e gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou? Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:
- Da ativa, minha senhora?
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:
- Da ativa, Motinha! Sai dessa…
Fernando Sabino
Retorne ao texto “A Mulher do Vizinho” e observe que ele apresenta uma estrutura fixa e objetivos bem definidos. A partir dessa afirmativa, identifique as tipologias textuais, considerando que se trata do texto em gênero crônica.
I. Tipologia textual injuntiva.
II. Tipologia textual narrativa.
III. Tipologia textual dissertativa.
IV. Tipologia textual descritiva.