Confira o gabarito extraoficial da prova de Português do cargo de Analista do Banco Central do Brasil (BACEN) 2013, com correção da professora Daniela Tatarin.

(…)

– (…) Chegaste aos teus vinte e um anos. Estás

homem, Janjão, longos bigodes, alguns namoros…

– Papai…

– Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas

importantes  . Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma;

podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na

lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes.

Qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é

que te faças grande e ilustre, ou, pelo menos, notável; que te

levantes acima da obscuridade comum. (…)

– Creia que lhe agradeço; mas…que ofício?

– Nenhum me parece mais útil do que o de

medalhão; foi o sonho da minha mocidade. Acabo, porém,

como vês, somente com as esperanças que deposito em ti. (…)

– O verdadeiro medalhão começa a manifestar-se

entre os quarenta e cinco e cinquenta anos.

–  …

– Uma vez na carreira, deves pôr todo o cuidado

nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio.

O melhor será não as ter absolutamente…

– Mas quem lhe diz que eu…

– Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado

da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre

ofício. Pode acontecer, porém, que, com a idade, venhas a ser

afligido de algumas ideias próprias; nesse caso, será necessário

aparelhar fortemente o espírito.

– Mas um tal obstáculo é invencível.

– O único meio é lançar mão de um regime

debilitante: ler compêndios de retórica, ouvir certos discrusos

etc.; para esse fim, deves evitar as livrarias, mas, de quando em

quando, elas serão de grande conveniência para falares do

boato do dia; de um contrabando, de qualquer coisa: verás que

muitos dos leitores, estimáveis cavalheiros, repetir-te-ão as

mesmas opiniões, e uma tal monotonia é saudável. Com tal

regime, durante – suponhamos – dois anos, reduzes o

intelecto, por mais pródigo que seja, ao equilíbrio comum.

– Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de

quando em quando…

– Podes empregas figuras expressivas e máximas;

Sentenças latinas; frases feitas, fórmulas consagradas pelos

Anos e incrustadas na memória individual e pública. De resto,

o ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de

pensar o pensado…

Machado de Assis. Teoria do medalhão. In: Obra completa. Rio

de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, v. II (com adaptações).

 

No que se refere à linguagem, à tipologia textual, às ideias e aos aspectos gramaticais do texto ao lado – Teoria do Medalhão, de Machado de Assis – , julgue os itens a seguir.

1 O segmento “foi um sonho da minha mocidade” (l.13) é um termo explicativo acerca da fase de ocorrência da expressão “o [ofício] de medalhão” (l. 12-13).

1 ERRADO

2 A correção gramatical do texto seria mantida caso o trecho “o meu é que te faças grande” (l. 8-9) fosse reescrito da seguinte forma: o meu desejo é que sejas grande.

2 CERTO

3 Na linha 33, o segmento “estimáveis cavalheiros” é um aposto explicativo da expressão “muitos dos leitores”.

3 CERTO

4 Se o autor do texto tivesse optado por empregar, no último período do texto, uma construção com verbos na voz passiva, o período poderia ter sido corretamente reescrito da seguinte forma: De resto, os elementos dessa arte difícil de se pensar o pensado te irá sendo ensinado pelo ofício…

4 ERRADO

5 No diálogo apresentado, entre o personagem Janjão e seu pai, a fala inicial é introdutória do assunto e indica a surpresa do pai diante da maturidade de seu filho e o tom solene que irá permear a conversa em que o pai aconselha o filho a avaliar criticamente os valores da sociedade da época, o que torna o texto de Machado de Assis ainda adequando à atualidade.

5 ERRADO

6 Fica provado, no diálogo apresentado, que “algumas apólices, um diploma” (l.5) legitimam a atuação das elites nacionais, que, no entanto, estão afastadas do poder político, porque aderiram ao ofício de medalhão.

6 ERRADO

7 Infere-se da leitura do trecho em que o pai de Janjão discorre sobre as possibilidades de interação social pela linguagem um alerta sobre a comunicação centrada em modelos que empregam a retórica.

7 ERRADO

8 Pela leitura do trecho “De resto, o ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado” (l.41-42), percebe-se a intenção do autor do texto de mostrar que a sociedade da época representava um engodo no que diz respeito a pressupostos acerca da racionalidade e do conhecimento.

8 CERTO

9 Sendo os substantivos que compõem a enumeração entre as linhas 6 e 7 núcleos do complemento da forma verbal “entrar” (l.6), seria mantida a correção gramatical do texto caso a combinação da preposição em com o artigo o  fosse empregada apenas no primeiro núcleo – “no parlamento” –, sendo suprimida nos demais núcleos.

9 ERRADO

 

Texto para os itens de 10 a 17

Ele é agora gerente de uma loja de sapatos. Não

porque escolheu, mas foi o que lhe restou. Perguntava-se

sempre: onde está o meu erro? O erro em relação a seu destino,

queria ele dizer. Não há grandes motivos a procurar no fato de

alguém ser gerente numa loja de sapatos. Mas uma vez que ele

mesmo se pergunta e estende sapatos como se não pertencesse

a esse mundo – o motivo da indagação aparece. Por que

realmente? Fora, por exemplo, o melhor aluno de história e até

por arqueologia se interessava. Mas o que parecia lhe faltar era

cultura histórica ou arqueológica, ele tinha apenas a erudição,

faltava-lhe a compreensão íntima de que fora neste mudo e

com esses mesmos homens que havia sucedido os fatos, que

fora na terra em que ele pisava que houvera um dia habitantes

e que os peixes que se haviam transformado em anfíbios eram

aqueles mesmos que ele comia. E até hoje é como um erudito

que ele estende sapatos – como se não fosse em contato com

esta áspera terra que as solas se gastam.

Clarice Lispector. O escrito. In: A descoberta

Do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

Considerando as ideias e os aspectos linguísticos do texto acima, julgue os itens seguintes.

10 No segmento “mas foi o que lhe restou” (l.2), a referência do pronome “o” é a expressão nominal “uma loja de sapatos” (l.1), e a do pronome “lhe” é o substantivo “gerente” (l.1).

10 ERRADO

11 Sem prejuízo da correção gramatical do texto, a forma verbal “haviam” (l.12 e 14) poderia estar flexionada no singular.

11 ERRADO

12 No período iniciado por “Mas” (l.5), identificam-se as causas da existência da pergunta “onde está o meu erro?” (l.3).

12 CERTO

13 O emprego do acento gráfico na palavra “arqueológica” e na palavra “áspera” justifica-se com base na mesma regra de acentuação.

13 CERTO

14 Segundo a autora, a diferença de prestígio e de remuneração  entre as profissões decorre da competência, mas também da realização técnica e organizada das tarefas, aspecto esse que escapa à indagação do gerente da loja de sapatos, por ser um erudito.

14 ERRADO

15 A autora do texto busca evidenciar que a modernização das sociedades valoriza conhecimentos tecnológicos em detrimento de conhecimentos relativos às ciências naturais, o que, de acordo com o ponto do gerente, desqualifica, na estrutura social e na organização profissional, as atividades laborais no comércio, como o de sapatos.

15 ERRADO

16 Infere-se do texto que a autora acredita que o cenário de conflitos ligado a profissões é irrelevante no que se refere à vida do gerente da loja de sapatos, vivida com singela nobreza.

16 CERTO

17 No trecho “não porque escolheu, mas foi o que lhe restou” (l. 1-2), o emprego da próclise relativa ao pronome “lhe” explica-se pela presença do pronome relativo.

17 CERTO

 

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